Uma conquista relevante, um governo insuficiente
O Diário Não Oficial da Política
Heineken brilha enquanto serviços públicos se deterioram
Relatório ou peça de marketing
Ao renunciar ao seu mandato antes mesmo do final de sua metade, o prefeito Diego apresentou um relato de realizações que merece análise cuidadosa. Chama atenção a existência de muitas obras com substancial aporte de recursos de emendas parlamentares ou parcerias público privadas. Ótimo que isso aconteça, mas por dever de ética o relatório deveria mencionar a participação por exemplo, do senador Rodrigo Pacheco na pavimentação da Estrada da Heineken, do deputado Emidinho Madeira na pavimentação de vias públicas, certamente diversas emendas do deputado Cássio Soares e também da iniciativa privada como a Faculdade Atenas na reforma de unidades de saúde. Também impressiona a quantidade de obras listadas como em execução sendo que algumas mal começaram e, mais grave, a inclusão de obras com o status "aguardando", como se já fossem realidade, inflando o relatório. Talvez fosse mais honesto destacar o Hospital Veterinário e o Centro Dia do Idoso, onde recursos já foram aplicados e hoje restam esqueletos deteriorando sem explicação convincente, sempre acompanhados de promessas de reinício que nunca se concretizam.
Ambiente favorável e resultado tímido
É preciso reconhecer, em nome da justiça, que o Dr Diego surfou em uma maré de emendas parlamentares inédita em Minas Gerais e herdou uma prefeitura organizada com cerca de 80 milhões em caixa, deixados pelo prefeito Renatinho Ourives. Havia, portanto, um ambiente extremamente favorável de receita e recursos. Ainda assim, ao comparar com rigor, conclui-se que o governo Diego Oliveira foi tímido em relação a diversos prefeitos de Passos, que em tempos de vacas magras, realizaram muito mais e deixaram referências em obras, ao contrário do governo Diego que ficou sem obras marcantes e sem realizações proporcionais às condições que teve.
A grande conquista chamada Heineken
O ponto positivo é claro, incontestável e merece aplausos sem qualquer ressalva. A chegada da cervejaria Heineken não apenas representa o maior empreendimento da história de Passos, como também simboliza uma virada de chave no potencial econômico e industrial do município. Trata-se de um investimento estruturante, capaz de gerar empregos diretos e indiretos, movimentar toda a cadeia produtiva, atrair novos negócios e elevar de forma consistente a arrecadação municipal ao longo dos próximos anos. Não se trata apenas de uma grande obra, mas de uma transformação de perspectiva. Passos passa a se inserir em um novo patamar de desenvolvimento, com reflexos no setor logístico, imobiliário, de serviços e na valorização da mão de obra local. A instalação da empresa projeta o nome da cidade em nível nacional e cria oportunidades que ultrapassam uma gestão, deixando um legado duradouro. É justo reconhecer que houve articulação política, capacidade de diálogo e empenho administrativo para viabilizar essa conquista, com participação decisiva de membros da equipe de governo, especialmente aqueles que conduziram as negociações e criaram as condições necessárias para a implantação do empreendimento. Por tudo isso, a chegada da Heineken deve ser registrada como o grande marco positivo do governo, um feito que, por sua dimensão, seguirá sendo lembrado por muitos anos na história de Passos.
Equipe instável e poucos destaques
Diego tentou, mas enfrentou dificuldades com sua equipe. A Secretaria de Saúde teve sete titulares sem solução dos problemas. Outras áreas como Planejamento, Assistência Social, Educação, SICTUR e Agricultura também sofreram trocas constantes. Ainda assim, houve escolhas acertadas como o secretário Max, com papel decisivo na conquista da Heineken, e Juliano Beluomini na SEFAZ, que organizou a pasta e melhorou as receitas. O novo prefeito, infelizmente, não contará com esses nomes que contribuíram de forma relevante.
Transparência sob pressão
A dificuldade de realizar uma gestão transparente foi uma marca do governo. Faltou prestação de contas clara, linguagem acessível e comunicação verdadeira com a população, fatores que ajudam a explicar a alta rejeição ao final do mandato. A intervenção do Ministério Público obrigou a publicação de dados em tempo real, revelando irregularidades como a contratação de 40 terceirizados da MGS com altos salários e vínculos políticos envolvendo parentes de vereadores, ex vereadores e jornalistas. A ampliação da transparência ajudou a conter o uso de recursos públicos para promoção pessoal do prefeito nas redes sociais e lhe rendeu uma multa de 46 mil reais.
Obras paradas e serviços colapsados
Um dos maiores problemas foi o abandono de obras e a falha na prestação de serviços. Licitações malconduzidas e fiscalização insuficiente resultaram em paralisações na pavimentação, no Centro Dia do Idoso, no Hospital Veterinário e em outros projetos. A coleta de lixo se tornou um caos com quatro empresas passando sem sucesso e a atual também sem resultados, deixando um problema grave para o sucessor. Ainda assim, nada supera a crise do sistema de saúde, que se agravou continuamente até se tornar a pior da história de Passos.
Alguns erros administrativos graves
Na área de licitações, a substituição de servidores experientes por equipes sem preparo comprometeu a qualidade dos processos. A vaidade e a presença de “rolando leros” que falam muito e respondem pouco agravaram a situação. Diversos aditivos contratuais ultrapassaram limites legais sem explicação pública e o registro de preço que é uma boa alternativa mas que dificulta o planejamento, foi usado em excesso.
Na Fazenda, preocupam a possível superestimação de receitas sem considerar corretamente as isenções da Heineken e o descumprimento da execução da dívida ativa, situações que podem gerar passivos judiciais futuros.
Permanece a dúvida sobre punições a empresas que abandonaram obras, o que pode caracterizar omissão administrativa. Também carecem de explicações os repasses milionários para eventos culturais sem chamamento adequado, concentrados em poucas entidades e gerando revolta no meio cultural.
Marketing em alta, gestão em baixa
Se a transparência foi falha, o investimento em imagem foi recorde. A maior verba de publicidade, jamais vista na história de Passos, foi utilizada em um credenciamento contestado juridicamente, com forte viés de promoção pessoal. O governo se destacou mais pelo marketing, entrevistas amigáveis e vídeos nas redes sociais do que por resultados concretos.
Do indulto à decepção
A população, impulsionada pelo entusiasmo com a Heineken, reelegeu o prefeito com ampla margem, concedendo uma espécie de indulto. No entanto, infraestrutura e serviços essenciais foram negligenciados. A partir do momento em que decidiu disputar cargo estadual, o prefeito se distanciou dos problemas da cidade. O símbolo maior disso é a crise do lixo, que ultrapassou todos os limites e expôs a prioridade dada à carreira política em detrimento de Passos e o que se comenta é que o gigantesco e célere desgaste da imagem do prefeito se deu por essas razões.
Nota Final
Mais do que festejos de despedida ou discursos cuidadosamente moldados para encerrar um ciclo, o momento exige maturidade, responsabilidade e, sobretudo, compromisso com a verdade. Não há espaço para celebrações artificiais quando os problemas reais permanecem vivos, sentidos diariamente por uma população que enfrentou dificuldades na saúde, no lixo, na transparência e na execução de obras e serviços essenciais. É indispensável que se faça uma análise firme, honesta e sem maquiagem de tudo aquilo que não funcionou, das oportunidades desperdiçadas, dos erros administrativos e das escolhas que comprometeram a qualidade da gestão pública. Ignorar esses fatos ou tentar encobri-los com narrativas otimistas apenas prolonga os mesmos vícios que levaram a cidade à situação atual. Somente a partir desse enfrentamento direto da realidade, com coragem para reconhecer falhas e disposição para corrigir rumos, será possível criar bases sólidas para um novo tempo. É esse exercício de verdade que permitirá romper com práticas equivocadas, resgatar a confiança da população e reorganizar prioridades.
Cabe agora ao novo prefeito Maurício da Silva compreender que sua maior oportunidade nasce exatamente daquilo que deu errado. Se ao invés de se embalar na campanha eleitoral do ex prefeito, tiver humildade e souber transformar os erros do passado em aprendizado e agir com firmeza, transparência e foco nos problemas reais, terá condições de conduzir um governo verdadeiramente diferente, eficiente e alinhado com os anseios da sofrida população passense.







