Topografia Alheia

Cronicando

Abr 7, 2026 - 18:48
Abr 7, 2026 - 18:49
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Topografia Alheia

Vivemos dias em que o julgamento corre mais rápido que o pensamento. Antes mesmo de tentarmos compreender quem está à nossa frente, já lhe atribuímos um rótulo. Sem hesitar, atiramos a primeira pedra — e o mais triste é que, muitas vezes, nem sabemos bem o motivo da pontaria.

Talvez fosse hora de lembrar uma lição antiga, dessas que se aprendem na quietude da farda ou no campo de batalha da convivência: antes de agir, é preciso fazer o reconhecimento de terreno. No exército, isso significa estudar o solo, avaliar riscos, entender as armadilhas do caminho. Fora dos quartéis, essa sabedoria serve à alma. É colocar-se no lugar do outro, tentar enxergar com os olhos dele, caminhar — ainda que por instantes — com os seus calos. Só assim se evita o erro da precipitação e, quem sabe, o crime da indiferença.

A empatia, essa palavra tão dita e tão pouco praticada, é uma força que nos vira do avesso. Ela nos tira do próprio umbigo e nos projeta para um território mais generoso: o da compaixão e da escuta verdadeira. Onde há empatia, o ódio perde o fôlego, o sofrimento encontra abrigo e o recomeço se torna possível. Porque a empatia não aponta o dedo — ela estende a mão. E é disso que o mundo anda carente: de acolhimento.

Estamos todos enfrentando lutas das quais ninguém sabe. Uns carregam culpas, outros lutos, muitos apenas a desilusão de uma tarde nublada. Há quem brigue com a falta de sentido, com a carteira vazia ou com o abandono. Cada um conhece o peso da mochila que carrega, e nenhuma delas é leve sob o sol do meio-dia. A empatia nos lembra que ninguém é só o que mostra na vitrine. Há sempre uma história escondida atrás do olhar.

Se fizéssemos esse reconhecimento de terreno antes de ditar certezas, erraríamos menos. Se antes de condenar o tropeço, perguntássemos sobre a pedra. Se, em vez de isolar o outro, abríssemos uma brecha de luz. Isso não é romantismo de almanaque. É urgência. É sobrevivência coletiva. Sem esse olhar atento, nos tornamos ilhas secas, incapazes de criar laços. Com ele, permitimos que o outro respire e se sinta, ainda que por um segundo, visto de verdade.

Que a gente não perca essa força simples, mas decisiva. E que, antes de julgar qualquer chão, a gente o reconheça com os olhos da alma.

Quem sabe assim, errando menos no julgamento, a gente passe a amar mais. E a ser, enfim, um pouco mais humano.

 

Luiz Gonzaga Fenelon Negrinho é advogado e cronista