Quando o diálogo é substituído pela Guarda Municipal
O Diário Não Oficial da Política
A recusa ao diálogo com servidores recebidos pela Guarda Municipal ampliam o desgaste público e o isolamento político do Dr Diego.
O desvio de finalidade: do gestor ao “coronel”
O maior erro de um prefeito ao lidar com reivindicações trabalhistas é a personalização do conflito. Quando um gestor interpreta pedidos de reajuste, melhorias nas condições de trabalho ou o cumprimento de planos de carreira como um “ataque pessoal” ou uma “manobra da oposição”, ele abandona a cadeira de estadista para vestir o figurino do coronelismo.
Nesse momento, a autoridade pública deixa de agir como chefe de governo e passa a atuar como dono do poder e esse é sempre o primeiro passo para o isolamento político e administrativo.
A falta de espírito público
O espírito público exige que o governante compreenda que não é proprietário da prefeitura, mas apenas seu síndico temporário. Ao obstruir os canais de diálogo, o prefeito incorre em três erros:
· Ignora a institucionalidade: sindicato não é inimigo, é o representante legal de uma categoria essencial para o funcionamento do serviço público.
· Confunde autoridade com autoritarismo: diálogo não enfraquece o gestor; a recusa em dialogar, sim.
· Prejudica diretamente o cidadão: greves não surgem do nada, são o sintoma clássico de canais de negociação deliberadamente bloqueados.
No fim, quem paga o preço da intransigência não é o prefeito nem o sindicato, mas a população, privada de coleta de lixo, atendimento em saúde ou funcionamento regular das escolas.
O “mandonismo” como estratégia de isolamento
Muitos gestores acreditam que “não ceder” é demonstração de força política. A história administrativa mostra exatamente o contrário: o mandonismo é sinal de fragilidade, incapacidade de gestão de conflitos e pobreza de visão institucional.
Governar não é mandar; é compor interesses divergentes dentro das regras do jogo democrático.
A armadilha da “ação política”
É recorrente o discurso de que greves e mobilizações sindicais seriam “políticas”. Ora, toda relação entre Estado e servidores é, por definição, política. O problema surge quando o rótulo é usado para deslegitimar reivindicações objetivas, como por exemplo:
· Recomposição inflacionária e ganho real,
· Melhoria das condições de trabalho,
· Fornecimento de EPIs,
· Respeito a planos de carreira.
Ao agir assim, o gestor rompe o pacto civilizatório mínimo que sustenta a democracia administrativa.
Assistencialismo não é política salarial
Em Passos, o prefeito Diego Rodrigo de Oliveira parece ter incorporado uma lógica típica do assistencialismo de ocasião: concede “agrados” pontuais — como abonos de fim de ano — enquanto se recusa a construir uma política salarial transparente, previsível e estruturante.
Servidor público não precisa de presente. Precisa de:
· Regras claras de progressão horizontal e vertical;
· Política de recomposição salarial permanente;
· Investimento sério em capacitação, com acesso democrático e não restrito aos apaniguados do poder;
· Combate ao mandonismo interno, frequentemente praticado por cargos de livre nomeação que confundem confiança política com licença para humilhar subordinados.
O caso concreto: SEMPRE x Prefeitura de Passos
Foi nesse contexto que o Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Passos-SEMPRE apresentou uma pauta com 34 reivindicações. A resposta escrita do Executivo foi evasiva e superficial, culminando no envio unilateral à Câmara de um projeto de lei prevendo 6% de reajuste e cerca de R$ 1.000,00 de auxílio-alimentação (valores extraoficiais), sem negociação prévia.
Mais grave: duas reuniões foram oficialmente marcadas entre o sindicato e o prefeito. Em ambas, os representantes dos servidores aguardaram por horas sem que o chefe do Executivo sequer aparecesse. O desrespeito institucional se agravou no episódio amplamente noticiado pelo OBSERVO, em 24 de fevereiro de 2026 (leia aqui).
Quando a Guarda substitui o diálogo
Segundo a reportagem, dirigentes do SEMPRE ocuparam a antessala da prefeitura em busca de diálogo, apenas para descobrir que o projeto de reajuste já havia sido enviado à Câmara à revelia da mesa de negociação. O ápice da crise ocorreu quando, ao final do expediente, a Prefeitura acionou a Guarda Municipal para tentar retirar os representantes sindicais do Paço Municipal. Prefeito e vice, curiosamente, não estavam presentes.
O que deveria ser uma reunião administrativa transformou-se em um ato de resistência institucional, amplamente repercutido nas redes sociais e acompanhado por servidores indignados.
O recuo forçado
Somente após horas de tensão, vigília e exposição pública, o governo municipal recuou. Em vídeo gravado no local, a presidente do SEMPRE, Nelza Efigênia, confirmou o reagendamento da reunião: “A força do servidor se mostrou maior que qualquer tentativa de silenciamento. Garantimos o direito básico de sermos ouvidos.”
A nova reunião foi marcada, mas o episódio deixou marcas profundas: o uso da Guarda Municipal para mediar conflito trabalhista, o desprezo pelo sindicato e a tentativa de governar por imposição escancararam um modelo de gestão autoritário, isolado e politicamente míope.
Nota Final. Quando a Ambição Atropela a Administração
Ao Excelentíssimo Senhor Doutor Prefeito Diego Rodrigo de Oliveira é preciso dizer com clareza o que já se comenta abertamente nas ruas e nos corredores da própria Prefeitura.
A obsessão por um projeto eleitoral pessoal não pode servir de justificativa para o abandono da Administração Municipal. Um gestor que governa com os olhos voltados para o próximo palanque deixa de enxergar os problemas concretos da cidade que jurou administrar.
A rejeição crescente ao seu nome não é obra de adversários, nem fruto de “movimentos políticos” organizados. Ela nasce, exclusivamente, das suas próprias atitudes. Nasce da recusa sistemática ao diálogo, do desprezo às instituições representativas, do tratamento dado aos servidores públicos e da tentativa de substituir política pública por gestos pontuais e midiáticos de conveniência eleitoral. Quem pretende disputar um mandato de deputado precisa, antes, demonstrar capacidade de concluir com dignidade o mandato que possui. Não se constrói credibilidade estadual quando se deixa um rastro de conflitos locais, serviços fragilizados e servidores desrespeitados. A Prefeitura de Passos não pode ser tratada como comitê de pré-campanha. O cargo de prefeito exige presença, responsabilidade diária e compromisso integral com a cidade. Quando o chefe do Executivo se ausenta da gestão para cuidar de projetos pessoais, quem assume o custo é a população. A história política é implacável com gestores que confundem poder com promoção pessoal. Campanhas passam. Mandatos terminam. Mas a memória coletiva permanece, e ela não costuma ser generosa com quem abandona o governo para correr atrás de ambições maiores sem ter resolvido as menores.







