Quando a chuva vira sentença: Juiz de Fora e Ubá choram seus mortos

O Diário Não Oficial da Política

Fev 28, 2026 - 05:58
Fev 28, 2026 - 09:16
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Quando a chuva vira sentença: Juiz de Fora e Ubá choram seus mortos
Cidades da Zona da Mata foram fortemente castigadas pelas chuvas, Ubá vive a maior tragédia de sua história (Foto: Divulgação)

Mais de 60 mortos, cidades destruídas e governos que chegaram tarde demais 

Zona da Mata mineira em colapso

Tragédia anunciada, omissão repetida e respostas insuficientes.

Em fevereiro de 2026, a Zona da Mata mineira vive uma das maiores tragédias climáticas de sua história recente. Chuvas intensas e contínuas devastaram cidades inteiras, com destaque para Juiz de Fora e Ubá. O resultado foi morte, destruição, milhares de desabrigados e uma população que, mais uma vez, paga o preço da falta de prevenção.

 

Panorama da situação

Dados consolidados até 27 de fevereiro de 2026

• Mortes confirmadas: 64 (Juiz de Fora registra 58 óbitos e Ubá registra 6 óbitos)

• Desaparecidos: entre 13 a 15 pessoas ainda sob escombros

• Desabrigados: mais de 3.000 apenas em Juiz de Fora

• Situação administrativa: estado de calamidade pública decretado nos dois municípios

• Volume de chuva: 460,4 mm em Juiz de Fora, maior índice dos últimos anos

• Alerta da Defesa Civil: risco elevado de novos deslizamentos e enchentes

Nada disso foi imprevisível. Tudo já constava em estudos técnicos, históricos pluviométricos e mapas oficiais de risco.

 

A tragédia tinha endereço

As áreas atingidas são as mesmas de sempre. Encostas ocupadas, fundos de vale adensados e cursos d’água estrangulados por obras malplanejadas. A chuva apenas ativou um cenário que já estava montado.

Juiz de Fora e o Paraibuna: O Rio Paraibuna voltou a transbordar e a cobrar a conta da omissão. Projetos de macrodrenagem existem há anos, recursos foram anunciados, mas as obras caminham em ritmo incompatível com a urgência do risco.

Ubá e o ribeirão esquecido: O Ribeirão Ubá transbordou novamente. O centro da cidade foi tomado por lama, comércio destruído e moradores desesperados. A repetição do desastre mostra que o problema nunca foi falta de diagnóstico, mas falta de decisão.

 

A população não quer visita

A cena da moradora cobrando o governador Zema ganhou repercussão nacional porque expressa um sentimento coletivo. Não se cobra discurso, nem presença simbólica. Cobra-se máquina, obra e ação imediata. A frase dramática e sofrida da moradora tocou o coração dos brasileiros e mostrou o quanto nossos políticos estão distantes dos problemas que a população enfrenta: "Não adianta vir limpinho fazer política. A gente precisa de máquina, caminhão-pipa para lavar. Olha a bagunça que está isso aqui! Agora vir limpinho desse jeito e não ajudar, não adianta!"

 

Limpeza não é solução

O anúncio do envio de detentos para limpar ruas cobertas de lama revela o nível de resposta do Estado. Limpar depois não evita morte antes. Medida paliativa não substitui política pública estruturante. Até parece que o governador Zema foi aconselhado pelo Dr Diego que tenta resolver o problema vergonhoso da coleta de lixo em Passos, com ajuda da APAC. Da mesma forma como criticamos o Prefeito, dirigimos as mais contundentes críticas ao governador.

 

Dinheiro parado também mata

Quase 500 milhões de reais estão previstos no PAC para drenagem e contenção de encostas nas duas cidades. A maior parte desses recursos segue travada por entraves burocráticos, projetos incompletos e lentidão administrativa. O resultado aparece agora em forma de vítimas.

 

As soluções técnicas são conhecidas

Juiz de Fora

• Obras de macrodrenagem nas bacias que deságuam no Rio Paraibuna
• Desassoreamento permanente do leito e dos afluentes
• Reservatórios de detenção para amortecer picos de cheia
• Contenção de encostas em áreas mapeadas como alto risco
• Requalificação da microdrenagem urbana em pontos críticos

Ubá

• Intervenções estruturantes no Ribeirão Ubá
• Construção de reservatórios de retenção compatíveis com o relevo
• Obras de contenção em encostas urbanas
• Planejamento urbano integrado à drenagem

 

Nota final

O governo de Romeu Zema falhou de forma grave. Limitou-se a visitas protocolares, anúncios em redes sociais e ao envio de detentos para limpeza urbana. Isso não é resposta a uma tragédia dessa dimensão. Faltou liderança, faltou comando e faltou execução de políticas preventivas que estavam sob responsabilidade direta do Estado. A população não perdeu casas por falta de vassoura. Perdeu vidas por falta de obra.

O governo federal, sob comando de Luiz Inácio Lula da Silva que ao que parece estava em mais uma viagem turística luxuosa com a portentosa primeira dama, também ficou aquém do mínimo esperado. Até o momento, não houve ação emergencial compatível com mais de 60 mortes e milhares de desabrigados.

Faltou presença efetiva nas áreas atingidas
Faltou uma força tarefa federal visível
Faltou agilidade real na liberação de recursos
Faltou um gesto político claro de solidariedade concreta

O que chegou foi insuficiente, lento e distante da dor real de quem perdeu tudo.

A Zona da Mata não foi destruída apenas pela chuva. Foi destruída por anos de adiamento, burocracia, omissão e uso político da tragédia. Quando o poder público chega tarde, a lama já passou.