Presidente de Cooperativa tem prisão decretada após sumiço de café

Empresário, acusado pelo desaparecimento de café depositado por cooperados, diz que assumirá responsabilidades

Jan 7, 2026 - 22:05
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Presidente de Cooperativa tem prisão decretada após sumiço de café
Galpões da Cocapil, em Ibiraci-MG (Foto: Reprodução/Google Maps)

A Justiça de Minas Gerais decretou a prisão do empresário Elvis Vilhena Faleiros, da cidade de Franca. Ele é presidente da Cocapil (Cooperativa dos Cafeicultores e Agropecuaristas de Ibiraci-MG) e alvo de um processo judicial que investiga o desaparecimento de café depositado por cooperados, com prejuízos estimados em até R$ 50 milhões. A Cocapil conta com 621 cooperados ativos.

Na ação, Faleiros é acusado de ter permitido operações que resultaram em forte desequilíbrio financeiro e de utilizar café de estoque — inclusive de produtores — para cobrir compromissos da cooperativa. Os autos mencionam suspeitas de fraude e gestão temerária, que culminaram na ordem de prisão preventiva contra o empresário francano.

Também são alvos da ação os diretores da Cocapil, Guilherme Andrade Clausing e José Ivano Bruziquesi Neto, que tiveram bens bloqueados, assim como Faleiros. “Segundo levantamento da Polícia Civil, o valor dos bens indevidamente apropriados chega à cifra de R$ 50 milhões”, diz trecho da ação.

Segundo a documentação juntada ao processo e divulgados pelo repórter Leonardo de Oliveira, do Sampi/Franca, os relatos de prejuízos começaram a surgir quando cooperados tentaram reaver as sacas que haviam depositado. Em um dos registros, uma produtora relata ter 342 sacas avaliadas em R$ 803.700,00 e afirma que foi informada de que o café dos cooperados teria sido usado para "cobrir operações malsucedidas" da cooperativa, sem autorização.

Em outro depoimento, um cooperado afirma ter perdido 35 sacas avaliadas em R$ 80.500,00 e menciona suspeitas de que o café teria sido oferecido como garantia em operações financeiras. Esses dois casos descritos somam R$ 884.200,00 — valor parcial, referente apenas às situações citadas neste trecho do processo.

O material também registra alegações de esvaziamento dos armazéns e questionamentos sobre eventuais movimentações societárias. Até o momento, no entanto, o volume total consolidado de prejuízos ainda não foi completamente esclarecido, mas estimativas apontam que o montante pode ultrapassar R$ 50 milhões, segundo o inquérito policial.

A cronologia apontada pelos autos indica que o quadro começou a se agravar entre 2018 e 2021, período em que a Cocapil realizou operações de trava de café, com entregas futuras em prazos de três a cinco anos. Com o passar do tempo, cooperados passaram a questionar a dimensão das dívidas e o destino do produto depositado, enquanto o caso avançava nas esferas policial e judicial.

 

DISPARADA NOS PREÇOS DA SACA AGRAVOU A SITUAÇÃO

 

Diante das acusações, a defesa de Elvis apresentou sua versão. Segundo o advogado Márcio Cunha, “o passivo da Cocapil atualmente é da ordem de R$ 100 milhões, não sendo verdade qualquer valor acima disso”. Ele afirma que a dívida decorre principalmente das travas firmadas em um período em que a saca era negociada entre R$ 500 e R$ 700. De acordo com ele, a cooperativa tinha aproximadamente 70 mil sacas contratadas, mas apenas cerca de 17 mil sacas foram efetivamente entregues, em parte porque muitos acordos eram verbais e não chegaram a ser assinados.

Cunha sustenta que fatores externos agravaram a situação. Com pandemia, geadas e seca, o preço do café saltou para valores superiores a R$ 2.500,00, chegando a R$ 3.000,00 por saca. Nesse cenário, muitos produtores optaram por não entregar o café contratado, enquanto exportadores pressionavam a cooperativa.

Para evitar medidas judiciais, a Cocapil teria decidido "entregar café próprio e de estoque", o que ampliou as perdas porque a cooperativa "entregava café a R$ 500 e R$ 700 e precisava recomprá-lo por cerca de R$ 2.500".

O advogado admite falhas na gestão e afirma que "o crescimento do passivo decorre de erros da administração", principalmente pela manutenção de contratos com preços fixos que se tornaram "altamente deficitários" após a disparada do mercado.

Ele diz que o plano proposto é priorizar os produtores. "A cooperativa pretende priorizar o pagamento dos cooperados por meio da venda de propriedades e ativos", enquanto, para bancos e fornecedores, a estratégia é a "renegociação das dívidas, buscando acordos e alongamento de prazos".

Sobre a prisão preventiva decretada, Cunha afirma que a medida foi "totalmente desnecessária". Segundo ele, Elvis “em nenhum momento se furtou a prestar esclarecimentos” e “sempre esteve presente na Cocapil” até a decisão judicial, atuando na construção de “um plano estruturado de pagamento”.

Para o advogado, a prisão “interrompeu negociações avançadas para a venda de propriedades e ativos”, atrasando a recuperação de valores. A defesa informa ainda que Elvis “entregou seu passaporte, impetrou habeas corpus no Tribunal de Justiça de Minas Gerais e aguarda decisão sobre a revogação da prisão preventiva”.

Questionado sobre o destino do café depositado, Cunha afirma que o produto foi “vendido ao longo dos últimos cinco anos para honrar compromissos com exportadores”, sobretudo por causa de travas não cumpridas. Segundo ele, essas operações geraram prejuízo porque “a cooperativa entregava café a R$ 500 e R$ 700 e precisava recomprá-lo por cerca de R$ 2.500”.

Ao final, o advogado afirma que Elvis "não fugirá de suas responsabilidades" e considera possível, "primeiro, o pagamento de todos os cooperados e produtores com sacas de café e, sem dúvida, a negociação com as instituições financeiras e demais credores".

 

Redação Redação