Passos, Heineken e a oportunidade que não pode ser perdida

O Diário Não Oficial da Política

Dez 8, 2025 - 06:24
Dez 7, 2025 - 20:58
 0  613
Passos, Heineken e a oportunidade que não pode ser perdida
Sem ação política contínua, os bônus econômicos da Heieken em Passos vão para outras cidades (Foto: Reprodução)

As perdas de assessores que sabiam planejar resultaram em uma ausência de planejamento que pode transformar um investimento histórico em benefício para outras cidades

 

A HEINEKEN

A fábrica da Heineken em Passos entrou em fase de produção. Ainda não há confirmação pública se já opera em plena capacidade ou se avança gradualmente até atingir a produção nominal. O fato concreto é que o parque industrial já está funcionando e trata-se de um complexo de escala difícil de imaginar sem conhecê-lo presencialmente. A dimensão física e tecnológica da estrutura representa um marco para o município e um legado inquestionável da atual administração.

A conquista da fábrica não nasceu de burocracia municipal, mas de uma articulação política ampla que envolveu o governador Romeu Zema, o senador Rodrigo Pacheco, o prefeito Diego e, especialmente, o então secretário Max, cujo trabalho técnico e político foi determinante.

 

O QUE SEMPRE FOI DITO SOBRE EMPREGOS

Desde o anúncio da Heineken, a projeção oficial sempre foi clara:

·     Empregos diretos (a própria indústria): menos de mil.

·     Empregos indiretos (cadeia periférica): cerca de 10 mil.

Essas vagas dependem da atração e fixação de empresas do entorno, logística, transporte, embalagens, insumos, serviços industriais, manutenção, engenharia etc. E é justamente nesse ponto que começam as preocupações.

 

A SAÍDA DO SECRETÁRIO MAX E A DESCONTINUIDADE

Após a saída do secretário Max, motivada por ciúmes internos e disputas infantis dentro da equipe de governo, a SICTUR passou a priorizar eventos e festividades, abandonando justamente o pilar estratégico da pasta: atração de investimentos, consolidação de cadeias produtivas e política industrial municipal. Resultado: quando questionado sobre a lista das empresas periféricas previstas com a instalação da Heineken, o atual titular da pasta não soube responder.
Pior: descobriu-se que uma grande fabricante de garrafas e embalagens, investimento essencial à cadeia cervejeira, optou por se instalar em Poços de Caldas.

Isso reforça a hipótese de que Passos não está fazendo o dever de casa na competição por investimentos periféricos, que não surgem espontaneamente.

 

INDÍCIOS DE ALERTA NAS NOTÍCIAS RECENTES

As recentes matérias do Observo, marco histórico do renascimento da imprensa livre em Passos, que não se curva e nem se vende a poderosos, acenderam um alerta legítimo:

1- “Sebrae Minas promove modernização de legislação em São João Batista do Glória”
Mostra que municípios vizinhos estão se movimentando para atrair empresas, modernizar legislações e criar ambiente favorável a investimentos.

2- “Passos registrou retração no mercado de trabalho em outubro”

A queda nas contratações logo após a inauguração da Heineken indica que o efeito multiplicador esperado não está se materializando dentro do município.

A soma desses fatores gera uma preocupação objetiva: sem ação política contínua, os bônus econômicos vão para outras cidades e Passos fica apenas com o impacto urbano e social do crescimento rápido.

 

OS QUESTIONAMENTOS NECESSÁRIOS

Diante disso, dois pontos precisam ser respondidos com clareza pelo governo municipal:

1.Quantos empregos, no total, foram gerados até agora com a chegada da Heineken?

·     Empregos diretos + indiretos + serviços associados + empreiteiras + logística.

2.Quais políticas públicas municipais estão sendo adotadas para que Passos usufrua efetivamente dos benefícios sociais do investimento?

·     Programa de integração com a cadeia produtiva;

·     Atração de fornecedores;

·     Incentivos fiscais sustentáveis;

·     Planejamento urbano;

·     Mapeamento de áreas para novos empreendimentos;

·     Política de qualificação profissional.

Sem respostas, cresce a impressão de que a cidade está assistindo a oportunidades escorrerem entre os dedos.

 

NOTA FINAL

A entrada da Heineken em Passos é, sem dúvida, um marco histórico. E é preciso reconhecer: o prefeito Diego, assessorado pelo competente secretário Max, cumpriu de forma decisiva tudo o que cabia ao município para que a empresa viesse para Passos. A articulação política foi correta, eficiente e estratégica, envolvendo Estado, União e município na medida exata. Até aí, mérito inquestionável. O problema começa exatamente depois. A instalação de uma gigante como a Heineken não encerra o trabalho, mas sim inicia uma nova fase, muito mais complexa: a fase da gestão estratégica do desenvolvimento. E é justamente essa etapa que parece paralisada.

A disputa interna, marcada por ciúmes, vaidades e infantilidades políticas, afastou quadros qualificados sem substituição à altura. O governo, em vez de ampliar sua capacidade técnica, reduziu-a, especialmente no que se refere ao Planejamento hoje inexistente e delegado a Politica. E desenvolvimento econômico não tolera amadorismo.

Enquanto isso, cidades vizinhas se mexem, atraem fornecedores, modernizam legislação e ocupam territórios econômicos que deveriam ser de Passos. Se a prefeitura não reorganizar urgentemente sua política de desenvolvimento, os efeitos positivos da Heineken, geração de renda, emprego, serviços, crescimento do setor produtivo vão se pulverizar por toda a região, restando a Passos apenas aumento do trânsito, pressão sobre infraestrutura urbana, especulação imobiliária, maior demanda por serviços públicos e pouco retorno econômico efetivo.

É o pior cenário possível: ficar com os ônus e deixar os bônus escaparem.

A história já deu o aviso: Betim vive até hoje as consequências de um crescimento acelerado e desordenado após a instalação da FIAT. Cinquenta anos depois, ainda paga caro por erros de planejamento, ausência de política urbana e falta de visão estratégica.

Passos está diante da mesma encruzilhada e não está demonstrando aprender com o exemplo.

A Heineken é uma oportunidade única. Mas oportunidade não aproveitada vira problema.
Se o governo municipal não recuperar sua maturidade política, recompor sua equipe técnica e assumir o protagonismo que o momento exige, Passos corre o risco real de perder a maior chance de desenvolvimento de sua história.

E isso não será culpa de Zema, de Pacheco, da Heineken, do Renatinho Ourives e nem do Barão de Passos ou da economia nacional. Será culpa exclusivamente da do governo Diego Oliveira, da vaidade, da imaturidade e da incapacidade de colocar a cidade acima das picuinhas e dos interesses políticos e eleitorais.

O tempo para corrigir o rumo é agora. Depois será tarde.