Pão com goiabada
Cronicando
Entre a goiabada de mamãe e a risada de Sólon, a vida se ajeitava — doce, quente, simples — no tacho da memória.
Há coisas na infância que chegam sem aviso e ficam. A merenda era uma delas: pão com goiabada, todo santo dia. Eu não reclamava — até o dia em que reclamei.
Isso tudo acontecia nos recreios do Educandário Senhor Bom Jesus dos Passos, onde eu e Sólon aprendíamos que amizade também se escreve com farelos de pão caindo no uniforme e risadas espalhando-se pelo pátio.
E, naquele tempo, uma figura se destacava entre as pedagogas: Juraci Parreira. Misto de bondade e ternura, ela tinha o dom de transformar cada lição em horizonte possível. Era amiga, era memória viva dos meandros escolares — e, anos depois, descobri que era também tia de Carlos Parreira, nosso editor. Coisas que só a vida costura com linha fina.
Juraci fazia da escola mais que um prédio: fazia dela uma porta de entrada para o mundo das possibilidades. Gratidão.
A cena volta inteira: eu, pequeno e sério, braços cruzados numa revolta que só as crianças conseguem levar a sério.
— Como é isso, mamãe? Todo dia pão com goiabada!
Ela, tranquila, como quem mexe uma panela imaginária:
— Pois troque, meu filho!
— Trocar como, mamãe?
Mamãe ergueu o queixo, oficializando a proposta:
— Ora, troque por goiabada com pão!
Ali nasceu a grande reforma alimentar da minha vida: a inversão dos fatores. E nada de alterar o produto. Uma revolução doméstica, daquelas que só as mães inventam — e sustentam — com a serenidade de quem já viu muita travessura maior.
Experimentei. Tentei ser justo com a inovação, mas o pão perdeu o prumo e a goiabada protestou com firmeza. Sobrou para mim: mastiguei a lição de que mudança, às vezes, é só mudança — não melhora o mundo.
Mesmo irritado, eu sabia: havia ternura por trás daquela lógica que parecia pegadinha. Mamãe era assim. Mexia o tacho de cobre até a goiabada ganhar ponto, queimando os braços, mas nunca a paciência. Talvez por entender que amor de mãe e doce de goiaba pertencem à mesma família de mistérios: exigem tempo, fogo baixo e fé no resultado.
Sólon ria da minha revolta como quem assiste a um pequeno teatro. E, se vivo estivesse o saudoso professor Osoirinho Lemos, irmão dele, teria registrado o episódio como um fato histórico:
“Início do conflito alimentar: final do século XX — filho contesta rotina culinária; mãe propõe inversão lógica. Riso geral como desfecho.”
Sólon se foi. O professor também. Mas o cheiro de goiabada quente continua convocando os dois — e, às vezes, juro que escuto suas risadas atravessando a casa, mesmo quando a tarde se desfaz em chuvas passageiras.
Depois do meu protesto infantil, mamãe me olhou com aquele meio sorriso — o mesmo que valia para bronca e carinho — e concluiu:
— Você pode.
E pude. Pude entender que a ironia também se herda, que certas doçuras sobrevivem e que pão com goiabada — sempre nessa ordem — é mais que merenda: é um fundo de alma, desses que o Senhor dos Passos abençoa sem pestanejar.
Luiz Gonzaga Fenelon Negrinho é advogado e cronista
luizgfnegrinho@gmail.com



