O recado do Senado

O Diário Não Oficial da Política

Mai 1, 2026 - 06:48
Abr 30, 2026 - 22:28
 0  133
O recado do Senado


A rejeição de Jorge Messias expõe a perda de coordenação do governo Lula e inaugura um novo estágio de tensão entre os Poderes

 

Floriano, o precedente e a anatomia da crise

O governo de Floriano Peixoto não foi apenas um período de repressão e consolidação da República, foi um retrato clássico de instabilidade institucional em formação. Ao assumir após a renúncia de Deodoro, encontrou um país dividido, com conflitos entre forças militares, disputas oligárquicas e uma estrutura republicana ainda em construção. O dado histórico mais relevante, e que ecoa diretamente no presente, é a rejeição de suas indicações ao Supremo Tribunal Federal em 1894. Aquilo não foi um episódio isolado, foi a manifestação de um sistema político que já não respondia ao comando do Executivo. Floriano governava, mas não controlava. A República existia, mas não estava estabilizada. É exatamente esse tipo de fissura que a história registra como o início das grandes crises.

 

O sintoma Messias e a doença maior

A leitura de Bertha Maakaroun, em sua coluna no Estado de Minas, é mais profunda porque desloca o foco do fato para o processo. A rejeição de Jorge Messias não é o problema, é o sintoma visível de uma doença institucional que já vinha se agravando. O governo de Lula da Silva não errou apenas na escolha do nome ou no timing da indicação, errou na leitura do ambiente político. Atuou como se ainda estivesse em um cenário de governabilidade estruturada, quando, na realidade, já operava em um ambiente fragmentado, com atores autônomos e interesses descentralizados. Bertha vai além ao estabelecer o paralelo histórico: assim como na República nascente de Floriano Peixoto, o Brasil atual vive um momento em que instituições e atores políticos parecem perder referência de seus próprios limites e papéis. O Executivo tenta governar sem base sólida, o Legislativo assume protagonismo e o Judiciário é constantemente tensionado e arrastado para o centro da disputa política. Não se trata apenas de conflito entre Poderes, mas de uma desorganização mais ampla do sistema institucional. A rejeição de Messias, a primeira desde 1894, carrega um simbolismo poderoso. Ela rompe uma tradição centenária e sinaliza que o pacto tácito entre os Poderes foi quebrado. E mais do que isso: revela que o Senado não apenas discorda, mas está disposto a confrontar com o desgastado presidente Lula. Esse é o ponto central da análise de Bertha, não o evento em si, mas o que ele revela sobre o estágio da crise.

 

Congresso protagonista e ruptura do eixo de poder

A atuação de Davi Alcolumbre e Rodrigo Pacheco deve ser interpretada dentro desse novo arranjo. Não há improviso, há reposicionamento. O Legislativo testa sua força, mede limites e, ao mesmo tempo, redefine o eixo de poder. O alerta dado previamente ao Planalto foi ignorado, e isso expôs não apenas um erro político, mas uma desconexão entre o governo e a realidade do Congresso. O que se observa é a transição de um modelo de governabilidade baseado em articulação para um cenário de enfrentamento e autonomia institucional. O Congresso deixa de reagir e passa a agir. E isso muda completamente a dinâmica política.

 

Economia, percepção e perda de narrativa

No campo econômico, o governo tenta reagir com medidas demagógicas de estímulo e programas de impacto. Mas há um elemento central que não pode ser ignorado: a percepção social. O descompasso entre os dados oficiais e a realidade vivida pela população mina a credibilidade. Quando o discurso não encontra respaldo na experiência cotidiana, ele deixa de convencer e passa a ser questionado. A tentativa de recompor popularidade por meio de ações pontuais enfrenta não apenas limites fiscais, mas um desgaste acumulado de confiança. E confiança, uma vez abalada, não se recompõe com anúncios.

 

O Observador não deixa passar

O nosso inclemente Observador da cena política chama atenção para um ponto que ajuda a entender o pano de fundo da rejeição: não se trata apenas de articulação, mas de percepção de estatura institucional. Para ele, há uma diferença evidente entre o perfil de Jorge Messias e o de Rodrigo Pacheco, tanto no peso político quanto na densidade jurídica exigida para o Supremo. A comparação ganha força quando se recorda o episódio envolvendo Dilma Rousseff e  Lula da Silva, em que Messias aparece em posição claramente subordinada, incumbido de levar documentos para assinatura. A leitura feita é simples: alguém com esse histórico de subordinação política teria dificuldade em sustentar, no Supremo, a independência e a autoridade inerentes ao cargo. A provocação é direta: quem imaginaria Rodrigo Pacheco sendo tratado como executor de ordens dessa natureza? É justamente essa expectativa de autonomia, personalidade e densidade institucional que, segundo essa análise, pesou na decisão do Senado. O recado, então, não teria sido apenas contra um nome, mas a favor de um perfil. E veio com um simbolismo que remete àquele episódio já conhecido da política nacional, resumido em uma expressão que dispensa explicações: “tchau, querido”.

 

Nota final

O quadro que se desenha exige uma leitura mais fria e estratégica, porque não se trata mais de um episódio, mas de uma inflexão política. Lula da Silva dificilmente interpretará a movimentação de Davi Alcolumbre como um ato isolado. É natural que veja ali, ainda que não declarado, o aval ou ao menos a tolerância de Rodrigo Pacheco, quase um irmão siamês de Alcolumbre, especialmente considerando o peso político de Minas Gerais no xadrez eleitoral. Lula insistirá em Pacheco como nome estratégico para Minas, tentando preservar um palanque relevante no segundo maior colégio eleitoral do país, ou recalculará sua rota diante de um aliado que, no mínimo, não impediu sua maior derrota institucional. Ao mesmo tempo, qualquer tentativa de retaliação ao Congresso pode produzir efeito contrário, fortalecendo ainda mais a autonomia de figuras como Alcolumbre e ampliando o isolamento do Executivo. Há também o fator reação institucional. Como se posicionarão órgãos como o STF em um ambiente onde o tensionamento político se intensifica. Até que ponto decisões técnicas poderão ser contaminadas por um cenário de disputa mais ampla. E mais: ministros alinhados ao governo manterão postura de contenção ou adotarão posições mais assertivas diante de um Executivo fragilizado?

No campo político, a derrota carrega um peso simbólico significativo. Para a população, não se trata de compreender os detalhes de uma sabatina ou de uma votação no Senado, mas de perceber um sinal claro de perda de força. Governos fortes impõem, governos estáveis negociam, governos frágeis perdem. E essa leitura tem impacto direto no humor eleitoral.

Outro ponto sensível envolve o uso de instrumentos tradicionais de governabilidade. Os 12 bilhões em emendas parlamentares como mecanismo de “articulação” serão honrados?

A história, desde Floriano, mostra que governos não caem no dia em que perdem. Eles começam a cair no dia em que deixam de controlar o sistema que deveriam conduzir. Aqui, ao que tudo indica, esse processo já começou.

Mas a cena do exagerado abraço do senador Rodrigo Pacheco em Jorge Messias no Plenário da CCJ, continuará povoando a mente de muitos brasileiros, assustados com inautenticidade do ato. O apropriado, talvez, fosse um cumprimento formal ou um civilizado aperto de mãos. Ficaria melhor!