O menino da bola verde

Cronicando

Dez 10, 2025 - 18:38
Dez 10, 2025 - 18:38
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O menino da bola verde

Ele era apenas um menino franzino, desses que a menor corrente de ar quase leva, mas que insistem em permanecer no mundo com a teimosia dos que ainda sonham. Tinha, talvez, sete anos. Morava nas proximidades do Jardim Centenário e passava boa parte dos dias jogando bola — uma bola verde, simples, leve, dessas que parecem inventadas para não fazer barulho no mundo. Jogava sozinho.

Não frequentava escola, embora esse fosse o maior dos seus desejos. E, em segredo, acalentava outro: jogar num time grande. Ser visto. Brilhar. Dar uma casa à mãe e cuidar do pai doente. Comentavam que viviam apertados, entre dificuldades e esperanças pequenas.

Todas as manhãs, quando eu saía para trabalhar, lá estava ele, no mesmo ponto da praça do Jardim Centenário, sempre com a bola verde obedecendo aos seus passinhos ágeis. A regularidade quase nos tornava cúmplices de passagem. Eu o observava e revivia meus tempos de pelada no Educandário, dos campinhos de Passos, da confiança que um menino deposita no que carrega dentro de si.

Nesses dias de Natal, uma vontade me tomou de repente: presenteá-lo com uma bola de verdade. Daquelas que eu, menino pobre, também jamais pude ter. Antes, porém, queria saber um pouco mais daquele pequeno jogador sem time.

Foi então que notei sua ausência. Dias seguidos sem vê-lo. A praça parecia maior, mais parada. Procurei nas vizinhanças. Chamava-o de Zezinho — até que alguém me corrigiu:

— É Naldinho.

Um gari, desses heróis anônimos da cidade, contou-me que ele estava doente. Nada muito certo; apenas a sombra da notícia. Fiquei inquieto, como quem pressente que a vida, às vezes, apronta curvas que não sabemos fazer.

Num fim de semana, deixei que o coração decidisse. Com a bola nova debaixo do braço, fui até o bairro onde moravam. Encontrei a casa simples no fundo de um quintal. A mãe me recebeu com uma força quieta; o pequeno, pálido, mas ainda com aquela faísca nos olhos. Quando viu a bola, pareceu reacender — coisa de segundos, mas suficiente para clarear o ambiente inteiro.

Depois, o tempo fez o que costuma fazer: passou. E um dia chegou a notícia que ninguém gosta de entender. Naldinho tinha partido. Não veio de forma grandiosa, nem dramática. Veio no modo como certas perdas chegam — quase de mansinho, mas abrindo um espaço imenso dentro da gente.

Outro dia voltei à praça do Jardim Centenário. O lugar estava igual: o banco torto, o cheiro de grama quente, um cachorro dormindo no canto. Só faltava ele. A velha bola verde continuava lá, quieta, como um passarinho que esqueceu de voar.

Fiquei parado um tempo. Há presenças que não fazem barulho. E, nessa ausência cheia de significado, quase pude ouvir sua risada curta, meio escondida, como quem pede licença para existir.

Pensei então que certas pessoas não vão embora de verdade; apenas mudam de distância. A gente é que precisa aprender a enxergar de outro jeito.

E enquanto me levantava para ir embora, juro que vi — de canto de olho — a bola dar um leve salto, daqueles que o vento não sabe fazer. Pode ser imaginação. Pode ser saudade. Mas ando achando que os bons permanecem perto, mesmo quando ninguém repara.

A praça segue igual. Só eu saio dali um pouco melhor, como se ele, lá de onde estiver, ainda acertasse a bola no meu peito.

 

Luiz Gonzaga Fenelon Negrinho é advogado e cronista • E-mail: luizgfnegrinho@gmail.com