O Exercício do Esforço
Cronicando
Carlito nasceu num desses lugares onde o futuro chega devagar, sustentado por muito esforço. Não por descaso do tempo, mas por escassez de oportunidades. A casa era simples, mas nela o relógio da vida acordava cedo. Antes do sol, o que se ouvia era o ritmo seco da palha contra o asfalto: a vassoura do pai. Gari da prefeitura, ele varria ruas como quem prepara o mundo para que os outros passem limpos. Era um despertador de caráter. Enquanto a mãe, entre baldes e espumas, ensinava que a dignidade tem cheiro de sabão, Carlito descobria que o mundo era maior que o quintal.
Eram três filhos. Uma das irmãs seguiu o magistério; a outra escolheu o compasso mais suave do casamento cedo. Carlito, porém, tomou rumo diverso. Seu passaporte não era de papel, mas de introspecção e livro. Lia de tudo, sem técnicas modernas, apenas pelo prazer do peso e do cheiro do volume gasto. Não lia para parecer sábio, mas para ampliar o mundo por dentro.
Quando dizia que queria ser “juiz federal”, a sala parecia encolher diante de tamanha ambição. Mas havia método naquele sonho. Estudava sabendo que a magistratura não é prêmio, é peso. Que decidir é interferir no destino alheio. Passou pelas escolas públicas do Oeste Mineiro, compensando a falta de recursos com a disciplina ferrenha — o puro exercício do esforço.
Aos vinte e cinco anos, o esforço virou destino: Carlito tornou-se juiz federal. Mas a vitória não teve a celebração que ele imaginava. Em vez dos fogos, instalou-se uma sobriedade nova, mais densa. A imparcialidade, ele descobriu, é uma faca que corta a própria carne. A ética mudou-se para os detalhes: no processo que vira travesseiro, na decisão que, para dar o direito a um, precisa tirar o sono de outro.
A vida encolheu para que o cargo crescesse. Os passeios com os filhos ganharam um olhar de vigia; as festas tornaram-se raras; a presença na igreja, discreta. Carlito aprendeu que a toga impõe uma distância que os livros não ensinam. Havia um cansaço que não vinha do corpo, mas da alma; um desgaste emocional que não se compensa no contracheque.
Ainda assim, algo permaneceu intacto: a memória da origem. Carlito nunca esqueceu o pai varrendo ruas nem a mãe limpando casas. Talvez por isso, ao interpretar a lei, buscasse não apenas a letra fria, mas o efeito humano da decisão.
Pouco antes da posse, o velho pai lhe dera o veredito final:
— Filho, seja direito. Dê a cada um o que é seu.
O velho falou simples. Só mais tarde Carlito descobriria que aquela frase atravessara séculos, registrada por um jurista romano chamado Ulpiano. Sorriu ao perceber que a justiça não começa no latim; ela já estava ali, na cozinha de casa, dita por um gari que nunca leu os clássicos, mas que os praticava entre uma rua e outra.
A função é linda, necessária e dura. Pacifica conflitos, mas cria tensões. Carlito aprendeu que o verdadeiro êxito não mora na toga, mas na consciência tranquila ao final do dia. O sonho se cumpriu de forma profunda: porque há sonhos que, quando realizados, deixam de ser nossos — passam a servir aos outros.
E isso, no fim das contas, justifica todo esforço.
Luiz Gonzaga Fenelon Negrinho é advogado e cronista. E-mail: luizgfnegrinho@gmail.com





