No Roxy, ‘A Empregada’ é uma adaptação competente e divertida
Da literatura para o cinema: a adaptação cinematográfica é esperada há tempos pelos fãs da obra
É um privilégio ser ruim e, ao mesmo tempo, divertido, para se usar uma construção retórica dita várias vezes em A Empregada, um longa sem pé nem cabeça, mas que tem a incomum capacidade de prender a atenção ao longo de seus 130 minutos. Muito disso é mérito de Paul Feig, um cineasta longe de fazer um cinema autoral, mas, ainda assim, um diretor competente quando quer, como é o caso de Missão Madrinha de Casamento e Um Simples Favor, do qual o novo filme está em próximo.
Adaptando, com algumas mudanças, o best-seller homônimo de Freida McFadden, o diretor não tem medo de exagerar. Daí surge a graça do longa, protagonizado por uma excelente Amanda Seyfried e uma mediana Sydney Sweeney, como a funcionária do título. Em mãos de um cineasta mais elegante e estiloso, um David Fincher, digamos, sairia algo à la Garota Exemplar, mas, enfim, Feig não veio para fazer grande cinema, mas para divertir as massas.
Sweeney é Millie, uma jovem sem casa e, aparentemente, sem família, que vive em seu carro, esconde seu passado misterioso e acha que tirou a sorte grande ao conseguir um trabalho como empregada na mansão de Nina (Seyfried). Esta, uma bela mulher, cheia de energia e excesso de boa vontade que parece ver na empregada uma nova amiga que irá morar no sótão de sua casa.
Subvertendo a lógica dos suspenses dos anos de 1990, como A Mão Que Balança o Berço e Mulher Solteira Procura, A Empregada não é sobre uma mulher ingênua descobrindo os horrores de conviver com outra psicopata. As coisas aqui, com roteiro de Rebecca Sonnenshine, tomam outros contornos, e as reviravoltas inesperadas colocam Millie e Nina numa gangorra de posições.
Depois do primeiro dia, quando parece que o trabalho vai ser tranquilo, a empregada acorda com a patroa aos berros destruindo tudo na cozinha e acusando-a de ter perdido as notas que escrevera para uma reunião de pais e mestres. A jovem funcionária não sabe o que fazer, até que o rico marido galã da patroa, Andrew (Brandon Sklenar), aparece para acalmar a mulher, que pede a Millie que, da próxima vez, seja mais cuidadosa. A tensão sexual entre Millie e Andrew é forte, e não passa despercebida a Nina.
Tudo se revela estranho naquela casa. Até a pequena filha do casal, Cecilia (Indiana Elle), tem comportamentos peculiares. Numa das primeiras cenas, ele pede à empregada para trocar o copo da mesa, pois aquele está sujo, e “tomar suco é um privilégio”, portanto deve ser num copo limpo. Esse vai ser o menor dos problemas na vida de Millie, como ela descobrirá.
Feig não demora a estilhaçar a tensão entre as duas mulheres, que parecem estar sempre num embate – especialmente com Nina dando ordens e depois dizendo que não mandou a empregada fazer tal serviço. Millie não pode abandonar o emprego, pois está em condicional e, segundo a agente da condicional, ela precisa de um trabalho estável e endereço fixo – tudo o que essa posição lhe dá.
As coisas não fazem sentido dentro da narrativa, mas pouco importa. Muitas coincidências e muitos dei ex machina aparecem aqui para fazer a narrativa caminhar. É preciso ir com o filme e não fazer perguntas, senão tudo desmorona. O estado mental desequilibrado de Nina, por exemplo, não é segredo nenhum. Suas supostas amigas riem disso pelas costas (como Millie ouve numa reunião), e elogiam Andrew, um verdadeiro santo.
Dizer que nada é o que parece é bobagem, afinal esse é um suspense e nada deve ser o que parece. Mas vale apontar que Feig e McFadden são diabólicos nos jogos de maldades e horrores que colocam na tela. Tudo é muito surpreendente, mesmo que feito sem tanto esmero, e altamente divertido. Se alguém brilha aqui é Seyfried, que, claramente, se divertiu horrores fazendo o filme, sendo sua ausência sentida sempre que sua personagem não está em cena. (Alysson Oliveira/CineWeb)
A Empregada (Housemaid). EUA, 2025. Gênero: Suspense. Duração: 131 minutos. Classificação: 16 anos. Direção: Paul Feig. Elenco: Amanda Seyfried , Sydney Sweeney , Brandon Sklenar. Cine Roxy, em Passos, 21h15.



