Minas em disputa

O Diário Não Oficial da Política

Nov 28, 2025 - 06:23
Nov 27, 2025 - 20:29
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Minas em disputa
A disputa pelo Governo de Minas Gerais, que até poucos meses parecia encaminhada para uma disputa previsível, virou um enigma político (Foto: Reprodução)

A sucessão estadual avança entre negociações, desistências e movimentos estratégicos que moldam 2026.

 

O tabuleiro mineiro virou de cabeça para baixo

A sucessão em Minas Gerais, que até poucos meses parecia encaminhada para uma disputa previsível entre campos já conhecidos, virou um enigma político. A decisão, ou melhor, a não decisão de Rodrigo Pacheco, somada a movimentos silenciosos do PL, ao crescimento paciente de Mateus Simões e às turbulências no entorno de Cleitinho, embaralhou completamente o cenário. E no meio desse redemoinho, a esquerda mineira, ainda traumatizada pelo desgastado governo Pimentel, tenta encontrar um rumo que não aparece. Com esse pano de fundo, cada movimento tem impacto imediato, e cada silêncio, ainda maior.

 

A esquerda mineira ainda paga a conta do governo Pimentel

Antes mesmo do turbulento recuo de Pacheco, o campo progressista já estava fragilizado. O desgaste profundo deixado pelo governo Fernando Pimentel ainda impregna o imaginário político mineiro, e nenhum estrategista do PT ousa dizer o contrário nos bastidores. A legenda até tentou construir uma “solução caseira”, sondando Margarida Salomão e Marília Campos, mas ambas recusaram. O resultado é um vácuo evidente: a esquerda não só está sem candidato, como segue sem um projeto minimamente competitivo para 2026.

 

O “plano Kalil”: solução prática, problema político

Sem nomes próprios, parte do PT mineiro voltou a defender a reedição do apoio a Alexandre Kalil, hoje no PDT, partido aliado de Lula e formalmente dentro da base governista. A solução parece lógica no papel, mas enfrenta resistência profunda na estrutura petista. O problema não é programático, mas emocional e estratégico. O relacionamento de Kalil com o PT sempre foi marcado por idas e vindas, críticas públicas e ruídos antigos. Além disso, setores da esquerda avaliam que apoiar um candidato do PDT enfraquece o projeto de reconstrução da marca petista em Minas, já abalada pela herança do governo Pimentel. Mesmo assim, é a única alternativa realista até agora. Kalil tem votos, recall e estrutura, três itens que o PT, hoje, não tem. O impasse é simples: a esquerda precisa de Kalil para sobreviver competitivamente… mas ainda não conseguiu admitir isso.

 

Pacheco: antes difícil, agora impossível

A aposentadoria antecipada de Rodrigo Pacheco da disputa acelerou o desmonte das expectativas da esquerda. O senador, que já patinava em indecisões e pouco carisma, conseguiu desgastar sua imagem também junto aos setores progressistas, os mesmos que já temiam sua indicação ao STF e agora se irritaram com sua crônica hesitação. Se sua candidatura já era improvável, hoje praticamente saiu do tabuleiro político. Mas ontem ele voltou a manter suspense e, em entrevista em Brasília, Pacheco reforçou que qualquer decisão sobre o futuro político passará por consultas a sua base em Brasília e em Minas. “Cabe agora sentar com meus companheiros do Senado e companheiros de Minas Gerais para decidir sobre a candidatura”, declarou. O senador também destacou que mantem canais de diálogo com diferentes campos. “Converso com todo mundo. Até com meus adversários políticos eu dialogo”, afirmou, atribuindo a prática ao funcionamento das instituições democráticas

 

Mateus Simões cresce por gravidade política

Com Pacheco fora e a esquerda confusa, o vice-governador Mateus Simões encontrou o ambiente ideal para se projetar. Montando um arco partidário robusto, agregando PSD, Novo e dialogando abertamente com o PL, Simões tornou-se o nome mais naturalmente posicionado para crescer. Suas intenções de voto ainda são tímidas, mas o alinhamento recente com Nikolas Ferreira, Domingos Sávio e aliados do bolsonarismo consolida sua imagem como candidato governista e opção forte da direita.

 

O PL se reorganiza: novos filiados e um vice à vista

No PL, o movimento estratégico é claro: ocupar espaços-chave na chapa de Simões. A filiação de Alex Diniz, marcada por seu rompimento teatral com o Republicanos, foi interpretada como a articulação mais sólida para ocupar a vaga de vice. Nikolas descarta ser candidato a governador, Bolsonaro apoia a linha, e Domingos Sávio intensifica a presença em agendas com Simões. Ao mesmo tempo, novos nomes desembarcam no partido, como Fabinho Ramalho, Bráulio Braz e, em breve, Greyce Elias. O PL se arma para ser protagonista.

 

Cleitinho: de líder absoluto a candidato incerto

Enquanto isso, o reinado tranquilo de Cleitinho sofreu seu primeiro abalo sério. O escândalo envolvendo seu principal aliado, Euclydes Petterson, atingiu o coração do seu discurso moralizador. A contradição entre a retórica “mãos limpas” e a crise no próprio círculo político gerou o pior dos cenários: perda de credibilidade. Nos bastidores, há quem diga que Cleitinho cogita desistir, decepcionado com o ambiente político e abalado pela necessidade de explicar aquilo que sempre condenou nos outros.

 

Aécio: de hipótese remota a nome estratégico

Com o ambiente polarizado e instável, o retorno de Aécio ao comando nacional do PSDB reacendeu uma hipótese que parecia folclórica. Aécio admite a aliados que, caso Cleitinho não venha, entra no jogo para representar o centro político, espaço vazio hoje. Seus desgastes são evidentes nas grandes cidades, mas seu recall no interior é forte, especialmente pelos dois governos bem avaliados. Prefeitos de todos os espectros, inclusive da esquerda, demonstram simpatia pela possibilidade. Se vier, muda totalmente o equilíbrio.

 

O Observador da Cena Política

O previdente Observador da cena Política passou a semana analisando a sucessão mineira e concluiu que Minas virou uma espécie de reality show político: ninguém é eliminado, mas todo mundo está no paredão. Kalil aparece, desaparece e reaparece mais rápido que notificação de WhatsApp. Cleitinho tenta manter a pose de “novo”, mas já aprendeu a frase clássica da velha política : “vamos aguardar as investigações”. O PL sonha com hegemonia, o PT sonha com unidade, e Zema sonha com um sucessor que emocione pelo menos a própria mãe. Do jeito que vai, o Observador recomenda uma regra nova para o jogo: antes de anunciar pré-candidatura, o político tem que soprar o bafômetro da coerência.

Para explicar as mudanças constantes na política mineira, basta dizer que Minas, afinal, continua sendo Minas: quando todo mundo acha que entendeu o jogo, o tabuleiro gira mais uma vez.

 

Márcio Lacerda reaparece

E no final da tarde de ontem os rumores políticos em Minas ressuscitaram o nome de Márcio Lacerda, ex-filiado à sigla e prefeito de Belo Horizonte entre 2009 e 2016. No ano passado, Lacerda chegou a acompanhar o deputado estadual Noraldino Junior à época presidente do PSB mineiro, em reunião com o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, também filiado aos quadros socialistas. O ex-prefeito da capital deixou a legenda em 2018, quando a direção nacional do PSB decidiu pelo apoio à reeleição do então governador Fernando Pimentel (PT), retirando sua candidatura ao Palacio Tiradentes. Para os que defendem sua candidatura, seria agora a hora dos petistas retribuírem.

 

Nota Final - Fechando o Jogo

A sucessão mineira avança como um tabuleiro meticulosamente rearranjado a cada semana. As peças se movem, recuam, testam espaços e sondam possibilidades ainda envoltas em neblina. Kalil mantém seu enigma calculado; o PT busca uma unidade que exige tempo e generosidade política; o PL organiza sua musculatura com método; Cleitinho administra o primeiro baque de sua trajetória meteórica; e Zema segue tentando lapidar um sucessor capaz de inspirar confiança e continuidade. No conjunto, Minas revela mais uma vez sua marca registrada: uma política que prefere a construção sutil ao estrondo, o gesto ao alarde, a prudência ao salto no escuro. E assim, sem pressa, o estado vai ajustando o cenário para que, quando a campanha começar de verdade, as escolhas sejam fruto da maturidade própria de quem sabe o peso de governar Minas Gerais.