Investigar pode… depende de quem
O Diário Não Oficial da Política
Da viagem paga ao filho do presidente à reação furiosa do PT: investigar se torna ameaça.
Sigilo que assusta
A decisão da CPMI do Congresso de quebrar o sigilo de Luís Cláudio Lula da Silva, o conhecido Lulinha, provocou uma reação desproporcional da bancada do PT e de seus habituais puxadinhos parlamentares. O motivo da irritação parece estranho, pois a medida não acusa, não condena e não antecipa julgamento. Trata apenas de buscar informações para esclarecer fatos.
Lulinha admite
Fábio Luís Lula da Silva admitiu ter viajado para a região de Aveiro, em Portugal, em classe executiva e com hospedagem paga por Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS. Trata-se de personagem apontado como operador de um esquema que desviou recursos justamente de quem mais deveria ser protegido pelo Estado brasileiro, os aposentados.
Por que Lulinha viajou?
A viagem teria como objetivo conhecer empreendimentos ligados à produção de medicamentos derivados da maconha, ou seja, o objetivo da viagem seria conhecer técnicas de produção de cannabis medicinal. A pergunta inevitável é simples. Por qual motivo alguém envolvido em um escândalo dessa magnitude bancaria uma viagem luxuosa ao filho do presidente da República? Seria mera generosidade ou uma tentativa de agradar quem possui no currículo, além de seu antigo trabalho o zoológico, o fato de ser herdeiro político do ocupante do Palácio do Planalto Luiz Inácio da Silva Lula? Se não há nada a esconder, a reação natural seria colaborar com a investigação. No entanto, o que se viu foi exatamente o contrário.
A canetada que parou a investigação
A reação institucional também veio com rapidez impressionante. Uma liminar do ministro Flávio Dino suspendeu a quebra de sigilo aprovada pela CPMI, mesmo após a decisão ter sido validada pelo presidente do Congresso Nacional. O episódio reacende o debate sobre o equilíbrio entre os poderes da República. As CPIs possuem poderes de investigação próprios das autoridades judiciais exatamente para garantir que o Parlamento possa cumprir sua função fiscalizadora. Quando decisões dessa natureza são interrompidas antes mesmo de produzir efeitos, a sensação transmitida à sociedade é a de que determinadas figuras desfrutam de uma espécie de blindagem institucional. E quando o dinheiro investigado envolve recursos retirados do bolso de aposentados, a indignação se torna ainda maior.
Os documentos falsos do passado
Entre os parlamentares que mais se exaltaram contra a quebra de sigilo está o deputado Rogério Correia, do PT de Minas Gerais. O problema é que seu histórico político não recomenda tanta indignação moral. Quando ainda era deputado estadual, Rogério Correia esteve envolvido em um escândalo que levou o PSDB mineiro a pedir sua cassação. O motivo foi a divulgação que ele fez de documentos falsos que tentavam incriminar deputados de outros partidos em supostos esquemas irregulares. Posteriormente ficou demonstrado que os documentos não eram autênticos. O episódio foi considerado uma tentativa de atingir adversários políticos com base em informações fabricadas. O caso marcou profundamente a trajetória política de Rogério Correia e expôs um método perigoso de disputa política baseado na criação de acusações sem lastro real.
A fake news com inteligência artificial
Mas o uso do cachimbo faz a boca torta. Anos depois, um episódio muito semelhante voltou a ser praticado por Rogério Correia. Em fevereiro de 2026 a Justiça determinou que Rogério Correia publicasse uma nota de esclarecimento por divulgar uma imagem manipulada por inteligência artificial. A fotografia falsa mostrava o ex presidente Jair Bolsonaro ao lado do presidente do Banco Central Roberto Campos Neto e do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
A decisão judicial obrigou o deputado a se retratar sob pena de multa de cinquenta mil reais.
Era assim, continuou assim: qual será a próxima fake News?
O paralelo entre os dois episódios é inevitável. Em momentos diferentes da carreira, Rogério Correia esteve associado à divulgação de material falso destinado a atingir adversários políticos. Existe ainda um detalhe impossível de ignorar. Se o autor desse tipo de material fosse um deputado de direita, muito provavelmente já estaria sendo investigado ou até indiciado no chamado inquérito das fake news, também conhecido no meio político como o processo do fim do mundo conduzido no Supremo Tribunal Federal.
A confusão na CPMI
Na sessão da CPMI do INSS, o deputado voltou a protagonizar mais um episódio constrangedor. Após uma revolta incontrolável dos petistas e seus puxadinhos porque a CPMI aprovou a quebra do sigilo bancário do Lulinha, imagens registraram uma briga dentro da comissão, com Rogério Correia entrando em confronto físico com o deputado Luiz Lima. Posteriormente o parlamentar petista se desculpou e admitiu ter "encostado" no colega e alegou que reagiu após empurrões. A cena transformou uma comissão parlamentar de investigação em algo parecido com arquibancada de estádio de futebol. Tudo isso demonstrou o grande temor dos governistas com relação às revelações que podem ser descortinadas pela quebra de sigilo do filho do presidente da República.
A contradição do discurso
O curioso é que Rogério Correia sempre defendeu com entusiasmo o poder das CPIs de quebrar sigilos bancários e fiscais quando existem indícios de irregularidades. Ao longo de sua carreira na Assembleia Legislativa de Minas Gerais e posteriormente na Câmara Federal, o deputado apoiou diversas iniciativas nesse sentido. Na CPMI do 8 de Janeiro, por exemplo, defendeu a quebra de sigilo de figuras da oposição, incluindo Jair Bolsonaro e familiares. Quando o alvo está na oposição, a quebra de sigilo é apresentada como instrumento essencial da democracia. Quando a investigação se aproxima do núcleo do poder petista, passa a ser tratada como abuso institucional.
Nota final - A conclusão inevitável
O episódio revela um padrão político que já se tornou familiar no Brasil. O discurso moralista de combate à corrupção costuma valer apenas quando direcionado aos adversários. Depois de escândalos gigantescos como mensalão e petrolão, ambos marcados por confissões, delações e devolução de bilhões desviados, a sociedade volta a assistir a um cenário em que investigações que se aproximam do poder central provocam reações desesperadas. Seja por meio de tumultos parlamentares, decisões judiciais relâmpago ou mobilizações políticas agressivas, o que se observa é um esforço permanente para impedir que determinadas investigações avancem. No fim das contas, o próprio Rogério Correia acabou revelando mais do que pretendia. Seu histórico de documentos falsos, a recente divulgação de imagem manipulada por inteligência artificial e sua reação violenta na CPMI ajudam a explicar por que certos setores do poder fazem tanta força para impedir investigações. A velha máxima continua válida. No discurso oficial, todos defendem transparência. Na prática, quando a investigação começa a se aproximar demais do governo e de seus familiares, a transparência rapidamente se transforma em pânico político.





