Helena Miareli, bela natureza
Cronicando
Chegou devagar, como chegam as boas surpresas. Um presente — talvez o maior que já recebi — trazido por uma leitora de oito anos. Leitora, sim. Dizia que lia tudo o que eu escrevia. O que não entendia, perguntava aos pais. E achava natural aprender assim: perguntando.
Helena Miareli me contou também ser apaixonada pelos bichos. Uma paixão intensa, dessas que se anunciam antes da razão. Queria ajudar os animais de rua, dar-lhes abrigo, carinho, um lar. O espaço, segundo ela, teria de ser “grandão assim”, abrindo os braços como quem tenta medir o horizonte. E, com aquela convicção que só as crianças carregam, disse que seria veterinária.
Mas nossa história começou antes. Um dia, com a coragem doce de quem acredita no próprio gesto, prometeu-me um quadro. Eu é que demorei a lhe dar um tema. Faltava-me aquele estalo que revela o essencial. Até que disse: “pinte a natureza”. Ela aceitou a tarefa como quem recebe um segredo bonito.
Pouco após o almoço, Helena apareceu lá em casa, acompanhada da mãe, Ana Paula — esposa de Hernani Miareli, registro necessário por lealdade a bons princípios de família. A menina chegou com passos leves e olhos acesos. Bateu à porta com o cuidado de quem traz algo precioso. E trazia: o quadro prometido.
Entregou-me a obra com uma alegria que não cabia nela. E não é que saiu melhor do que eu podia imaginar? Helena não pintou apenas a natureza. Pintou o encantamento possível. Morros, montanhas, pássaros, cores vivas — predominando o verde das folhas e o azul do céu. Era como se a paisagem respirasse, como se conversasse com quem olha. Ali, a simplicidade virou beleza. E a beleza virou verdade.
Às vezes penso que as crianças guardam um tipo de lucidez que nós perdemos no caminho. Não é ingenuidade — é clareza. Elas enxergam o essencial sem precisar nomear. Helena me lembrou disso. Sua pintura não busca imitar a natureza; busca entendê-la. E, ao fazê-lo, restitui à paisagem um sentido que os adultos costumam esquecer. Há verdades que só uma criança alcança, talvez porque ainda não aprendeu a duvidar das próprias possibilidades.
Recebi, então, de uma artista grande no tamanho da alma, mais uma tela para minha galeria em Passos. Tela essa que faria empalidecer — por pura alegria — meus amigos Maurício Ponsancini e Luís Frade.
Junto ao quadro veio outra delicadeza: sua fotografia, presa ao canto, ao lado da assinatura. Um gesto simples e definitivo. Não era só a autoria que ela registrava ali. Era a pureza do instante. O brilho de quem faz algo com o melhor de si. Assinou com o nome — e com a alma.
Fiquei feliz. Muito feliz. No final, Helena me agradeceu e fez um pedido: que eu escrevesse sobre seu grande feito. Cumpro aqui a promessa, com respeito e verdade.
A pequena artista de oito anos conversa, sem perceber, com a própria arte. Sua sensibilidade, antes da idade e acima do entendimento, revela um olhar atento e apaixonado pelo mundo ao seu redor. Certamente, quem ama a pintura — Monet ou Van Gogh, ou qualquer outro que se deixa guiar pelo coração — sorriria diante da obra de Helena Miareli.
Parabéns, Helena.
E obrigado por dividir comigo o presente da natureza.
Luiz Gonzaga Fenelon Negrinho é advogado e cronista
luizgfngrinho@gmail.com



