‘Entra pra dentro, menino’ - Café, chuva e a infância que ainda nos visita

Cronicando

Mar 3, 2026 - 11:00
Mar 3, 2026 - 11:01
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‘Entra pra dentro, menino’ - Café, chuva e a infância que ainda nos visita

A infância nunca coube direito na sala de visitas. Cabia no quintal, no pé de manga, na terra úmida depois da chuva fina. Mas na sala — não.

Quando chegavam visitas, mamãe nos convocava com um olhar que dispensava explicações. Íamos para o sofá como quem assume posto de vigília. Éramos muitos, dez Negrinhos, uma escadinha de ombros e joelhos que apertava o estofado, tentando fazer caber o silêncio onde antes morava a algazarra. Pés juntos, coluna ereta, mãos pousadas nos joelhos. A boa educação tinha sua liturgia, e nós participávamos dela como pequenos fiéis ainda sem compreender o mistério.

Papai permanecia entre as visitas, falando de assuntos que me pareciam grandes demais para o tamanho da minha curiosidade. As palavras passavam por mim como pássaros altos: eu via o movimento, mas não alcançava o sentido. Meu olhar, então, buscava o alto da parede. Lá estava a pequena réplica de violino que ganhei do padrinho Zito Negrão por ocasião de um aniversário. Era o meu tesouro suspenso, uma música muda que me fazia companhia enquanto o café não vinha.

Mamãe se retirava para a cozinha. Era ali que algo verdadeiramente importante acontecia.

Em questão de minutos — e esse detalhe me espantava — surgia com um prato de biscoitos dourados. Chamava-os de cascorão. Mamãe tinha o dom das multiplicações: com pouco trigo e muita vontade, operava o milagre de alimentar a todos nós e ainda sobrar para a cortesia.    A palavra tinha estalo, tinha som de coisa crocante. Hoje sei que se trata de iguaria portuguesa, dessas que atravessaram o mar e foram encontrar abrigo nas cozinhas do interior. Mas, naquele tempo, não me interessava a origem. Bastava-me o aroma.

E servia o cascorão com um café cheiroso, desses que saúdam a vida logo cedo.

O cheiro chegava antes dela. Espalhava-se pela casa como aviso de que a solenidade estava prestes a ceder. As visitas, até então compostas, inclinavam-se levemente para a frente. Papai interrompia a frase. Nós, que fingíamos indiferença exemplar, despertávamos por dentro.

Havia um instante exato em que a sala deixava de ser sala e voltava a ser casa.

O primeiro cascorão partido ainda morno tinha algo de revelação. Não era apenas o sabor — embora fosse excelente. Era a sensação de que o mundo podia ser simples e bom ao mesmo tempo. Que o tempo obedecia às mãos de mamãe. Que o cuidado tinha forma redonda e superfície dourada.

A infância, mesmo sentada corretamente, escapava pelos dedos.

Às vezes começava a chover enquanto as visitas ainda estavam ali. Uma chuva fina, que caía sem cerimônia. Eu me inquietava. A mangueira no quintal parecia me chamar pelo nome. Mamãe percebia o movimento antes que ele se completasse e dizia, da porta: “Entra pra dentro, menino, que a chuva está chegando.”

Eu já estava dentro. Mas entendia.

Era menos uma ordem e mais um cuidado. A repetição tinha o peso de um abraço que se sente no corpo, mesmo sem toque. A sala podia conter nossos corpos; o quintal, nossa vontade. A voz dela continha ambos.

Hoje, quando a memória abre suas janelas, não recordo as conversas de papai. Recordo o cheiro do café, o gosto do cascorão, o brilho breve da chuva no cimento, o tom exato da advertência materna. Recordo a sensação de que havia sempre um lugar para onde voltar.   Um lugar onde o dinheiro, por ser curto, nunca foi maior que o riso, e onde a mesa, por ser simples, era sempre larga o suficiente para todos nós.

A infância não cabia na sala. Mas cabia inteira na lembrança.

E a lembrança, curiosamente, ainda tem cozinha, ainda tem quintal, ainda tem chuva fina — e uma mãe que chama, com doçura firme, para entrar pra dentro.

 

Luiz Gonzaga Fenelon Negrinho é advogado e cronista.