‘Entra pra dentro, menino’ - Café, chuva e a infância que ainda nos visita
Cronicando
A infância nunca coube direito na sala de visitas. Cabia no quintal, no pé de manga, na terra úmida depois da chuva fina. Mas na sala — não.
Quando chegavam visitas, mamãe nos convocava com um olhar que dispensava explicações. Íamos para o sofá como quem assume posto de vigília. Éramos muitos, dez Negrinhos, uma escadinha de ombros e joelhos que apertava o estofado, tentando fazer caber o silêncio onde antes morava a algazarra. Pés juntos, coluna ereta, mãos pousadas nos joelhos. A boa educação tinha sua liturgia, e nós participávamos dela como pequenos fiéis ainda sem compreender o mistério.
Papai permanecia entre as visitas, falando de assuntos que me pareciam grandes demais para o tamanho da minha curiosidade. As palavras passavam por mim como pássaros altos: eu via o movimento, mas não alcançava o sentido. Meu olhar, então, buscava o alto da parede. Lá estava a pequena réplica de violino que ganhei do padrinho Zito Negrão por ocasião de um aniversário. Era o meu tesouro suspenso, uma música muda que me fazia companhia enquanto o café não vinha.
Mamãe se retirava para a cozinha. Era ali que algo verdadeiramente importante acontecia.
Em questão de minutos — e esse detalhe me espantava — surgia com um prato de biscoitos dourados. Chamava-os de cascorão. Mamãe tinha o dom das multiplicações: com pouco trigo e muita vontade, operava o milagre de alimentar a todos nós e ainda sobrar para a cortesia. A palavra tinha estalo, tinha som de coisa crocante. Hoje sei que se trata de iguaria portuguesa, dessas que atravessaram o mar e foram encontrar abrigo nas cozinhas do interior. Mas, naquele tempo, não me interessava a origem. Bastava-me o aroma.
E servia o cascorão com um café cheiroso, desses que saúdam a vida logo cedo.
O cheiro chegava antes dela. Espalhava-se pela casa como aviso de que a solenidade estava prestes a ceder. As visitas, até então compostas, inclinavam-se levemente para a frente. Papai interrompia a frase. Nós, que fingíamos indiferença exemplar, despertávamos por dentro.
Havia um instante exato em que a sala deixava de ser sala e voltava a ser casa.
O primeiro cascorão partido ainda morno tinha algo de revelação. Não era apenas o sabor — embora fosse excelente. Era a sensação de que o mundo podia ser simples e bom ao mesmo tempo. Que o tempo obedecia às mãos de mamãe. Que o cuidado tinha forma redonda e superfície dourada.
A infância, mesmo sentada corretamente, escapava pelos dedos.
Às vezes começava a chover enquanto as visitas ainda estavam ali. Uma chuva fina, que caía sem cerimônia. Eu me inquietava. A mangueira no quintal parecia me chamar pelo nome. Mamãe percebia o movimento antes que ele se completasse e dizia, da porta: “Entra pra dentro, menino, que a chuva está chegando.”
Eu já estava dentro. Mas entendia.
Era menos uma ordem e mais um cuidado. A repetição tinha o peso de um abraço que se sente no corpo, mesmo sem toque. A sala podia conter nossos corpos; o quintal, nossa vontade. A voz dela continha ambos.
Hoje, quando a memória abre suas janelas, não recordo as conversas de papai. Recordo o cheiro do café, o gosto do cascorão, o brilho breve da chuva no cimento, o tom exato da advertência materna. Recordo a sensação de que havia sempre um lugar para onde voltar. Um lugar onde o dinheiro, por ser curto, nunca foi maior que o riso, e onde a mesa, por ser simples, era sempre larga o suficiente para todos nós.
A infância não cabia na sala. Mas cabia inteira na lembrança.
E a lembrança, curiosamente, ainda tem cozinha, ainda tem quintal, ainda tem chuva fina — e uma mãe que chama, com doçura firme, para entrar pra dentro.
Luiz Gonzaga Fenelon Negrinho é advogado e cronista.







