Cultura em Passos: dessa vez TAC não resolve
O Diário Não Oficial da Política
Recursos públicos no radar e um cenário que aponta para investigações mais duras.
Cultura em Passos: quando a denúncia ganha corpo
Desde meados de 2025, as críticas à política cultural de Passos deixaram de ser pontuais e passaram a formar um quadro consistente de questionamentos aqui no Diário. O que começou com denúncias sobre concentração de recursos evoluiu para um cenário mais complexo, envolvendo repasses elevados, ausência de critérios claros, exclusão de artistas independentes e indícios de irregularidades na formalização de parcerias. Hoje, o debate já não se limita à escolha de projetos culturais. Ele alcança a forma como o dinheiro público foi distribuído, a legalidade dos procedimentos adotados e a responsabilidade dos gestores envolvidos. A investigação do Instituto Cidadania e Desenvolvimento (ICD), mostrada em matéria do Observo (leia aqui), realizada pelo Ministério Público nas apurações, somada às contradições públicas apresentadas por entidades beneficiadas, indica que o caso ganhou dimensão institucional. O que está em análise é um conjunto de decisões que impactaram o uso de recursos públicos, a credibilidade da política cultural do ex Secretário e o acesso democrático à cultura na cidade.
Instituto na mira: irregularidades apontadas
Os eventos realizados com apoio da Prefeitura passaram a ser investigados. Os principais pontos levantados incluem ausência de chamamento público, falhas na formalização das parcerias, dúvidas sobre execução contratual e falta de transparência nos gastos. A investigação já identificou repasses públicos a um instituto com valores, origem e finalidade definidos. Para a “Jornada do Orgulho LGBTQIAPN+”, houve R$ 55 mil via Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social, Trabalho e Renda, além de mais de R$ 24 mil em despesas com estrutura do evento, custeadas pela Secretaria de Cultura, incluindo som, iluminação e segurança. Na “Feira Afro Passos”, consta termo de fomento de R$ 200 mil com apoio da Secretaria de Indústria, Comércio e Turismo, somado a recursos de emenda parlamentar federal nº 43340005, de autoria da deputada Dandara Tonantzin (PT). Também foram gastos mais de R$ 61 mil em despesas estruturais.
O que o inquérito aponta:
• divergências entre os gastos realizados e os registros oficiais das parcerias
• ausência de formalização adequada de parte das despesas
• falta de transparência na divulgação das parcerias, contrariando o MROSC
• dificuldade de localização do instituto no endereço cadastrado
• fragilidade na composição do conselho fiscal
• indícios de contratação de familiares ligados à diretoria
Há ainda o componente político. O presidente do instituto, foi candidato derrotado a prefeito pelo PT em Cássia, informação presente no conjunto analisado.
A contradição
A análise mais contundente veio a público quando foi apontada uma incoerência difícil de ignorar.
O presidente do instituto afirmou não ter conhecimento formal da investigação.
O próprio Ministério Público, por outro lado, confirmou a existência de depoimentos prestados por representantes da entidade. Assim o nosso inclemente Observador da cena política de Passos não deixou em brancas nuvens e fez a pergunta direta que permanece sem resposta: como pode haver depoimentos e, ao mesmo tempo, desconhecimento declarado? A nota divulgada pelo instituto não esclareceu. Criou mais dúvida sobre a condução interna e sobre a transparência adotada.
Um padrão que se repete
O caso não surge isolado. Ele segue a mesma lógica observada na condução cultural recente, marcada por concentração de recursos, ausência de critérios públicos consistentes e decisões pouco transparentes. Vale aqui relembrar artistas passenses de grande destaque e com trabalho excepcional que foram completamente alijados das atividades culturais oficiais porque não fazem parte da turma que fazia genuflexão diária ao antigo secretário
Cristiane Gasparoto e a exclusão seletiva
Enquanto recursos circulavam dentro de um circuito restrito, artistas como a talentosa Cristiane Gasparoto permaneceram fora de qualquer política pública. Com trajetória internacional, continuou produzindo sem apoio institucional, evidenciando a distorção nos critérios de escolha.
O caso do Corcunda: desrespeito no palco e grandeza na resistência
Durante o Encontro de Carros Antigos em Passos, a Companhia Teatral Encena levou à praça a peça O Corcunda de Notre Dame, sob a direção e protagonismo de Nathany França, artista com quase três décadas de trajetória e reconhecimento internacional. O espetáculo estava estruturado, com figurinos, elenco preparado e um público formado por famílias, crianças e idosos. Entretanto a organização do evento dos carros, manteve o som do outro palco musical em volume elevado durante toda a apresentação. Foram feitos diversos pedidos para redução do volume. Nenhum foi atendido. O resultado foi constrangedor. Atores precisaram projetar a voz acima do som externo para manter a peça em andamento. Mesmo diante do desrespeito, Nathany França conduziu o espetáculo até o fim, sem interrupções, preservando a integridade artística da apresentação. A reação do público foi imediata. Aplausos de pé não apenas pela qualidade da peça, mas pela postura da companhia diante da situação.
Já a tradicional comemoração da Semana Santa, Nathany corajosamente apresentou de forma extraordinária o espetáculo Paixão de Cristo - Os escolhidos, que foi um estrondoso sucesso se apresentando também nos bairros. Algumas conhecidas figuras que usam dobradiça na coluna para o Prefeito, chegou a, de forma putrefata, anunciar outro evento como a "Paixão de Cristo da Prefeitura" o que por vir de onde veio desmereceu o espetáculo oficial.
A comunidade reage e faz a cultura acontecer
Diante da omissão do poder público, a própria comunidade começa a se organizar para manter viva a cultura local. Um exemplo disso é o Instituto Motirô, que atua há mais de três anos na construção e democratização do acesso à cultura em Passos. Suas atividades são mantidas com recursos próprios e apoio direto da população, sem dependência de repasses públicos. A proposta é simples e reveladora. Contribuições mensais acessíveis, a partir de R$ 10, sustentam projetos, encontros e eventos culturais abertos à comunidade. O contraste é evidente. Enquanto milhões são direcionados com questionamentos e investigações, iniciativas independentes sobrevivem com apoio popular, organização e compromisso direto com a cultura real.
Nota final
A gestão cultural do mandato Diego Oliveira operou com concentração de recursos, fragilidade de critérios e baixo nível de transparência. Os repasses ao instituto, com valores, origem e finalidade já identificados, expõem falhas na formalização, divergências nos registros, ausência de publicidade adequada e indícios de práticas incompatíveis com a boa gestão pública. As consequências deixam de ser administrativas e passam a envolver responsabilização mais ampla. A contradição nas declarações do instituto, somada às evidências já levantadas, reforça a necessidade de apuração rigorosa. O antigo secretário deixa um passivo concreto, com efeitos que ainda se espalham pela administração. O atual Secretário recebe um cenário que exige decisão firme de revisar contratos, expor informações e corrigir distorções e já demonstrou que é essa a sua disposição para alívio da Cultura Passense.







