Com a renúncia do Diego renasce a esperança de uma política de saúde mental mais humana

O Diário Não Oficial da Política

Mar 7, 2026 - 06:30
Mar 6, 2026 - 21:46
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Com a renúncia do Diego renasce a esperança de uma política de saúde mental mais humana
O protesto dos movimentos em Passos, nos muros do Cemitério, em abril de 2024 (Reprodução)

Com a mudança no comando da Prefeitura, cresce a expectativa de que Maurício Antônio da Silva enfrente com mais humanidade a crise de saúde mental que afeta famílias em Passos. 

 

A dor silenciosa que mobiliza a sociedade

Passos recebe neste sábado um encontro de acolhimento para pessoas enlutadas pelo suicídio, iniciativa organizada pelo Núcleo Passense de Acolhimento de Pessoas Enlutadas pelo Suicídio, com apoio da UEMG, como noticiou o OBSERVO (leia aqui). A proposta é oferecer escuta, apoio emocional e troca de experiências entre famílias e pessoas que enfrentam a dor profunda causada por essa tragédia humana.

O fato revela algo importante: segmentos da sociedade civil, profissionais da área e a universidade estão atentos ao crescimento preocupante dos casos de autoextermínio ligados à depressão, transtornos psiquiátricos e crises emocionais graves. Quando a comunidade se mobiliza dessa forma, fica evidente que há um problema real, grave e crescente que atinge diretamente a estrutura das famílias.

 

Quando a sociedade avança e o poder público recua

Enquanto profissionais, voluntários e instituições acadêmicas se organizam para criar redes de acolhimento, a administração municipal parece caminhar na direção oposta. O município teve mais de uma oportunidade concreta de implantar o CAPS III em Passos, com recursos já disponibilizados pelo governo federal.

Mesmo com o financiamento garantido, a Prefeitura recusou a implantação do serviço. O fato se repetiu quando a verba voltou a ser oferecida em outra ocasião. A decisão surpreende porque o CAPS III representa justamente a principal estrutura comunitária de tratamento e acompanhamento em saúde mental, capaz de atuar antes que a crise se transforme em tragédia.

 

A justificativa inaceitável

Para justificar a recusa ao CAPS III, o prefeito Diego de Oliveira alegou preferência pela implantação de leitos de saúde mental em hospital geral para internação breve ou mesmo o hospital dia. A explicação, no entanto, não resiste a uma análise mínima das políticas públicas de saúde mental.

Os leitos hospitalares são utilizados em situações de crise aguda, como surtos psicóticos, risco imediato de suicídio ou descontrole grave do comportamento. São estruturas destinadas a estabilizar o paciente durante um período curto de internação.

O CAPS III cumpre função completamente diferente. Trata-se do serviço comunitário responsável pelo acompanhamento contínuo dos pacientes, pela prevenção de crises, pelo atendimento diário e pelo acolhimento de pessoas em sofrimento psíquico grave. Em outras palavras, é o serviço que atua antes da internação e que muitas vezes evita que ela aconteça.

 

Quando se abre mão de cuidar das famílias

Recusar um serviço estruturante como o CAPS III significa abrir mão de ampliar a rede de proteção em saúde mental. Em uma cidade que enfrenta aumento de depressão, uso abusivo de drogas e sofrimento psicológico, a ausência dessa estrutura pesa diretamente sobre as famílias.

O CAPS III oferece acompanhamento permanente, equipe multiprofissional, atendimento diário e suporte comunitário para pessoas que vivem crises psíquicas profundas. Sem esse tipo de serviço, muitos pacientes acabam chegando ao sistema de saúde apenas quando a situação já se tornou extrema. Nesse ponto, o sofrimento familiar já atingiu níveis dramáticos.

 

Uma escolha política que cobra seu preço

A mobilização da sociedade civil em torno do acolhimento aos enlutados pelo suicídio mostra que o problema está diante de todos. A comunidade percebe a gravidade da situação. Profissionais de saúde e instituições acadêmicas também. O que causa perplexidade é justamente a ausência de prioridade por parte do Governo Diego Oliveira diante de um tema tão delicado. Saúde mental deixou de ser assunto periférico há muito tempo. Hoje ela é reconhecida como uma das maiores emergências sociais do país.

 

A cidade precisa de uma política de saúde mental

O encontro promovido, sábado mostrou que Passos tem profissionais sensíveis, pessoas dispostas a ajudar e instituições que se preocupam com a dor humana. O que falta é que essa preocupação também se transforme em política pública estruturada e permanente.

Cuidar da saúde mental não é luxo, não é tema secundário e muito menos gasto dispensável. É uma necessidade urgente para proteger vidas e preservar famílias inteiras de uma dor que muitas vezes deixa marcas irreparáveis.

 

O tempo do descaso precisa terminar

As negativas do prefeito Diego de Oliveira em implantar o CAPS III ficarão registradas como uma decisão difícil de compreender diante da realidade que o município enfrenta. Quando recursos federais estavam disponíveis para fortalecer a rede de saúde mental, a prefeitura preferiu simplesmente não levar o projeto adiante.

Faltam pouco mais de vinte dias para que o atual prefeito renuncie. Espera-se que, com a mudança na administração municipal, a cidade possa finalmente olhar para esse problema com a seriedade que ele exige. Que o vice-prefeito e futuro prefeito de Passos, Maurício Antônio da Silva, tenha uma visão mais humana diante de uma chaga social que atropela famílias inteiras. O sofrimento causado pelo suicídio não pode continuar recebendo do poder público apenas silêncio e indiferença.