Check-up — o sacrifício moderno
Cronicando
Já pronto — ou assim imagino — sigo em direção ao Hospital São José, prestes a ser furado, perfurado, quase imolado — por São José! — e verter meu sangue à avaliação. Quanta emoção. E, como não poderia faltar, levo comigo, com todo o zelo e discrição possíveis, o exame de urina — pequena amostra, grandes revelações.
Dizem que é rotina, mas há sempre um certo heroísmo em oferecer o próprio braço à agulha, como quem consente: “faça-se a ciência”. O check-up virou cumprimento de tabela — sobretudo entre nós, honrados integrantes da terceira idade. Antes, ia-se ao médico quando doía; agora, vai-se para descobrir onde poderá doer.
Depois do sangue, às 9h, enfrento a esteira — o chamado teste ergométrico, ou teste de esforço, em que se observa o coração em movimento, como se a máquina quisesse arrancar dele alguma verdade escondida. Devagar no começo, acelerando no meio, quase parando no fim. Caminhar sem paisagem, sem horizonte, sem vento no rosto — apenas paredes frias e impassíveis. Um exercício físico e, ao mesmo tempo, uma reflexão: avançar muito para permanecer no mesmo lugar. A vida, às vezes, se parece com isso — alterna ritmos, impõe cadências, mas exige continuidade.
Enquanto caminho, penso nos momentos em que o coração se altera — medo, alegria, sobressalto. A esteira, com sua monotonia precisa, acaba por organizar o pensamento. Nem todo passo carrega sentido imediato; alguns apenas sustentam o movimento.
Às 15h, chega o exame de próstata por ressonância magnética — tecnologia de ponta, tempos civilizados. Com alívio, deixo no passado o velho procedimento manual, mais próximo de uma invasão do que de um exame. A máquina é fria, impessoal, mas preserva a dignidade sem exposição.
Em seguida, resta esperar. Os resultados, os números, os termos técnicos que traduzem, em linguagem especializada, aquilo que já se intui: o tempo avança. Nesse intervalo, ele se alonga e testa a paciência. Revistas esquecidas, conversas alheias, rostos anônimos — tudo compõe um pequeno teatro, e eu ali, entre espectador e personagem, à espera de um veredito.
Há, porém, uma graça nisso tudo. Fazer check-up é um gesto dezinho permanência. É alguém dizendo à vida: ainda. E, se é para seguir, que seja com o coração observado, o sangue examinado, a mente vigilante e o humor preservado — esse, sim, muitas vezes decisivo.
Sigo, então, entre tubos, máquinas e paredes, com um sorriso de quem já entendeu. Porque o exame mais rigoroso talvez não esteja nos aparelhos, mas na forma como se atravessa cada dia — com alguma lucidez, certa leveza e, se possível, um pouco de elegância.
Luiz Gonzaga Fenelon Negrinho é advogado e cronista







