A Prefeitura de Passos em modo campanha
O Diário Não Oficial da Política
Quando cada ato administrativo parece escrito para a candidatura do prefeito — e não para a cidade.
Nota inicial
Ontem nossos tijolaços foram dedicados a uma grave excrescência praticada pelo governo municipal e aprovada por unanimidade pela sempre submissa Câmara Municipal. Nem mesmo o advogado do Prefeito, digo, o Secretário de Apoio Jurídico da Câmara, percebeu o óbvio: alterar o salário-base apenas de um único cargo no Plano de Cargos e Salários é uma distorção já condenada pela jurisprudência do STF. Mas a falta de planejamento do governo municipal, que insiste em transformar a política de pessoal em exercícios de demagogia, vai muito além desse aumento privilegiado aprovado com facilidade desconcertante.
Será que vive em Nárnia?
O deslumbrado presidente da Câmara deu entrevista escancarando elogios ao governo municipal para justificar o abono, como se falasse de Londres, certamente não de Sucupira e muito menos de Passos. Esqueceu o caos na saúde, as obras paradas e o abandono de prédios e quadras esportivas e principalmente a falta de planejamento e organização institucionais. Mas quem vive em função das sessões de homenagens, tem prioridades próprias: depois de festejar os 25 anos do prédio, só falta inaugurar uma placa em tributo à cadeira do presidente, que já aguentou mais discursos inúteis do que deveria.
Do alto da mesa diretora, o vereador Plínio parece ter perdido a visão da cidade real. Enxerga o plenário, mas a população que depende de serviços eficientes segue invisível.
A política do pingado
O prefeito insiste em substituir política salarial por truque de fim de ano: o abono pago com sobras do Legislativo. Não revisa carreira, não conversa com o sindicato, não planeja uma política de pessoal duradoura. Em dezembro, oferece o “gole” para o servidor não desmaiar. Valorização? Só se for a valorização simbólica de quem lembra do funcionalismo quando sobra troco.
Salário não se constrói com abono
Modernidade na gestão de pessoal significa previsibilidade, carreira, metas, critérios e sustentabilidade. O abono, por ser incerto, não melhora remuneração futura, não corrige perdas nem permite planejamento familiar. É um benefício voluntário e não obrigatório anual da administração, que não incorpora ao salário: dá um alívio, mas não garante nenhum futuro.
A farra da MGS
Outro ponto que merece a atenção dos passenses, está relacionado com as contratações irregulares via MGS que geraram cerca de 40 demissões. O prefeito teve a coragem de dizer, em entrevista, que era para “racionalizar despesas”, mas os fatos mostram o oposto: os demitidos agora pressionam por cargos comissionados para voltar pela porta da frente. Muitos ocupantes atuais foram demitidos para dar lugar àqueles egressos da MGS com QI forte (quem indicou), mas isso não teve como ser feito para todos.
O vice-prefeito em missão de resgate
Na penúltima reunião da Câmara, compareceu o vice-prefeito e quase prefeito Maurício Antônio da Silva, pedindo a aprovação, ainda neste ano, de um projeto criando 26 novos cargos comissionados. Objetivo: acomodar os órfãos da MGS. Apenas uma vereadora fez o mínimo exigível: pediu estudos técnicos e financeiros que justifiquem inflar ainda mais a folha.
Criar cargo não é atividade eleitoreira
Antes de inventar cargos comissionados, a Prefeitura deveria apresentar necessidade funcional comprovada, impacto orçamentário, alternativas mais baratas, coerência com o planejamento institucional e perfil técnico mínimo. Nada disso apareceu. Mas a urgência política parece já muito bem documentada.
A Prefeitura não é agência de empregos
Criar cargos comissionados é medida excepcional. Só é legítima quando melhora a gestão, não quando serve para acomodar aliados desempregados. Sem estudo, sem planejamento e sem justificativa, vira apenas a mais recente evidência de que a máquina pública está sendo tratada como extensão de QI’s influentes.
Moral da história
Passos ganhou abono improvisado, plano de cargos distorcido e um pacote de novos comissionados a caminho. A valorização do servidor transformou-se em espetáculo de ilusionismo fiscal: muita fumaça, pouca gestão e nenhuma política séria de pessoal.
NOTA FINAL
À medida que o tempo passa, fica cada vez mais evidente que o prefeito Dr Diego parece governar com os olhos voltados para sua própria campanha a deputado. As decisões recentes, do abono improvisado aos cargos comissionados sob encomenda, revelam um governo que trata a máquina administrativa como palco eleitoral e os servidores como massa de manobra, não como profissionais essenciais à cidade.
Uma política de pessoal decente exige exatamente o oposto: respeito, previsibilidade, carreiras estruturadas, qualificação permanente e diálogo institucionalizado. O funcionalismo é o motor da Prefeitura; sem ele, não há saúde, educação, obra, atendimento nem cidadania. Reduzi-lo a instrumento de conveniência eleitoral é minar o próprio funcionamento do serviço público.
Enquanto a gestão insiste em improvisos que rendem manchetes fáceis, a cidade perde a oportunidade de construir uma administração madura, profissional e capaz de valorizar o potencial humano que a Prefeitura já possui, e que merece muito mais do que abonos sazonais, cargos precários e decisões tomadas ao sabor das ambições de um único homem.
Passos precisa de gestão. O prefeito parece só precisar de votos.



