A Geometria dos Afetos
Cronicando
Caro amigo Roberto Alux,
Há notícias que chegam como um acorde súbito, capaz de reorganizar toda a partitura da memória. Recebi com imenso pesar a partida de Marcos Venício Alux Maia — o nosso eterno Marquinhos. Ao ouvir seu nome agora, o passado não apenas volta; ele se impõe com uma clareza mansa, como se o tempo fizesse uma pausa para nos deixar olhar para trás.
Vi-me, outra vez, na casa de seus pais, Maria Alux e Eurides Maia, ali próxima ao Estadual. As figuras tutelares das avós, Maria e Josina, pareciam ancorar o lar em uma serenidade antiga. Naquela sala, a vida tinha ritmo. O piano de Dona Maria Alux, exímia pianista e mestra, não apenas ensinava notas; a música costurava o cotidiano. Guardo com especial ternura a imagem dela em duo com meu pai, o maestro José Marciano Negrinho. O violino ajustado ao queixo dele; as mãos firmes dela sobre as teclas. Juntos, no Coro da Matriz ou nos saraus domésticos, provavam que a amizade é, antes de tudo, uma harmonia perfeita.
Lembro, com uma nitidez quase comovente, da sua Primeira Comunhão, Roberto. O terno azul-marinho, herdado de Fernando, com medalhinha consagrada na lapela e ajustado com esmero, parecia carregar mais história do que tecido. Calças curtas, tudo impecavelmente engomado. Havia ali uma solenidade serena. E Marquinhos, ainda pequeno, observava tudo com aquele olhar de quem decifra o mundo pelo silêncio, sob a sombra cúmplice do Fernando, meu parceiro de infância e de tantas ousadias juvenis.
Recordo os dias em que eu levava o Marquinhos para jogar bola no Estadual. No início, por pura teimosia minha, tentei moldá-lo goleiro. Mas ele não nascera para o isolamento das traves; sua vocação era o campo aberto. Revelou-se um zagueiro de uma nobreza rara: seguro, rápido, um dos melhores que vi em ação. No lendário Copa Azul, do Broinha, ele não apenas jogava; exercia uma firmeza que era, na verdade, o reflexo do caráter forjado entre o som das teclas de casa e o trato justo de seu pai, o Sr. Eurides.
As lembranças agora se sobrepõem: o quicar da bola no chão, o riso que desarmava qualquer erro, a fidalguia de um lance que o tempo não apaga. São fragmentos de luz que compõem uma música interior, profundamente nossa.
Deus, em Sua pressa incompreensível, chamou-o cedo. Talvez precisasse de um espírito lúcido para organizar o jogo lá em cima, ou de alguém que entendesse, desde o berço, o valor do silêncio e da lealdade. A vocês, Roberto, Fernando, e demais familiares, resta o privilégio do afeto. Que as lembranças sejam como a música de nossos pais: uma chama que não se apaga, um som que permanece vibrando no ar, mesmo depois que o arco deixa as cordas.
Com afeto e eterna lembrança,
Luiz Negrinho
Formiga, 06/02/2026
P.S.: A crônica é o que humaniza o tempo. Marcos. Sem esse olhar, o passado seria um relatório frio de fatos; com ele, ganha textura e sentimento. A eternização do efêmero.
Luiz Gonzaga Fenelon Negrinho é advogado e cronista – E-mail: luizgfnegrinho@gmail.com







