A engenharia do poder em Passos

O Diário Não Oficial da Política

Nov 29, 2025 - 06:16
Nov 29, 2025 - 08:11
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A engenharia do poder em Passos
O prefeito Diego Oliveira agora em autoprodução solo, sem dinheiro público e aparato oficial nas suas redes sociais (Foto: Reprodução Redes Sociais)

 

A cidade, o personagem e a blindagem: como se criou um governo sem oposição.

 

A reeleição inédita

Passos viu, pela primeira vez, um prefeito ser reeleito. Diego Rodrigo de Oliveira, que começou com cerca de 20% dos votos válidos em 2020, terminou 2024 com 81% de aprovação nas urnas. Um salto matematicamente raro e politicamente muito bem construído.

 

A “mãe de todas as narrativas”: Heineken

A instalação da Heineken em Passos foi o maior ativo político do governo. A disputa perdida por Uberaba e vencida por Passos virou passaporte para um ciclo de euforia econômica e social. A conquista é real e reconhecida, mas também finita. E, quando o efeito Heineken ameaçou arrefecer, começou a engenharia política que sustentaria a popularidade por mais quatro anos.

 

A construção de um personagem

O prefeito aderiu à estratégia moderna: governar pelo Instagram. Abandonou formalidades e encarnou o papel de “prefeito gente como a gente”. Fantasias, brincadeiras, lives e vídeos diários criaram uma presença contínua, simpática e informal. O marketing sobrepôs-se à institucionalidade. A liturgia do cargo foi desprezada completamente e isso agradou a muita gente.

 

Publicidade turbinada

Passos gastou quase  R$ 5 milhões em propaganda, no governo Diego, 500% acima do que gastou o governo anterior - que instituiu de forma ilegal o 'credenciamento'. Não é um detalhe  é uma estratégia.  O edital de credenciamento n.º 004/2025, revelado nas denúncias e agora questionado em recurso no CSMP, é continuidade do motor de distribuição de verbas a rádios e Web TVs desde o início do primeiro governo. A concentração de mídia, o silêncio das críticas e a superexposição do governo formaram um ambiente politicamente blindado. O tema é objeto de contestação formal no Ministério Público, inclusive com alegação de promoção pessoal e descumprimento da Lei 14.133/2021

 

A imprensa silenciosa

Desde saúde pública até obras paradas, não se viu uma crítica significativa ecoar pelos canais locais. A combinação entre publicidade oficial, presença constante em estúdios e contratos de mídia criou um ecossistema informativo onde só o positivo aparecia. A imprensa, quase por completo, tornou-se órgão oficial de elogios espontâneos. Os "aduladores" jornalistas garantem um governo perfeito.

 

A blindagem na Câmara

Para neutralizar oposição, adotou-se o conhecido método do loteamento político. Vereadores passaram a indicar nomes, e, quando os cargos comissionados não foram suficientes, surgiu a solução paralela: as contratações pela MGS. Denúncias apontam irregularidades nessas contratações, cerca de 40 pessoas, e o governo reagiu demitindo rapidamente após a repercussão, numa tentativa de conter a crise. A manobra, entretanto, não evitará uma apuração dos fatos atuais e pretéritos com grandes indícios de ilicitudes que se fortalecem com a decisão do Prefeito de demitir os apaniguados.

 

A relação com empreiteiras e prestadores

Fontes jornalísticas levantam suspeitas, ainda não apuradas, de perigosa proximidade com empresas de construção e agentes culturais, produzindo monopólios. Obras abandonadas sem sanções, contratos descumpridos sem punições e a empresa de coleta de lixo acumulando falhas sem consequências. Cobra-se insistentemente, inclusive pelo Diário, quais medidas sancionatórias obrigatórias foram adotadas pela Prefeitura. Até agora, silêncio.

 

A narrativa do “não sou eu”

O prefeito consolidou um hábito: problemas nunca são dele. Quando algo dá errado, a culpa é: da empresa contratada, do governo anterior, da gestão técnica, da burocracia funcional e fatos externos. A estratégia evita desgastes e mantém o protagonista intacto. A população, assim, não identifica o agente público como responsável por falhas administrativas.

 

A cidade hipnotizada

Resultado final: uma cidade entretida, informada apenas pelo filtro do governo, conectada ao personagem e à narrativa do sucesso permanente. O prefeito construiu, peça por peça, um sistema de blindagem política, comunicação controlada, supressão de oposição e amplificação positiva. A eleição com 90% não veio por acaso, veio por engenharia. Cidadãos sofrendo nas filas em busca de salvar suas vidas pelo sistema de saúde precário, não enxergaram nenhuma responsabilidade do Dr Diego e foram seus eleitores acompanhando o "efeito manada" resultado do meticuloso projeto de Poder que foi construído

 

O risco para o futuro

O modelo é eficiente para vencer eleições, mas perigoso para a democracia local. Um governo sem oposição, sem crítica, sem transparência e sem imprensa independente tende a se afastar das obrigações públicas essenciais. E, como se lê nos documentos e depoimentos hoje em análise pelo Ministério Público, a fronteira entre publicidade institucional e promoção pessoal já foi ultrapassada o suficiente para gerar ações, investigações e acordos com o Ministério Público.

 

NOTA FINAL

No fim, o que se observa em Passos não é apenas um projeto de governo, mas um projeto de controle: controle da narrativa, da opinião pública, da imprensa local, da Câmara, das redes sociais e até da própria percepção da realidade. A reeleição recorde não é fruto exclusivo de eficiência administrativa, mas da articulação de um sistema político comunicacional que operou sem contrapontos, sem transparência plena e sem freios institucionais eficazes.

A população foi conduzida por uma narrativa cuidadosamente construída, e não por uma avaliação crítica e plural do governo. A democracia local, para existir de fato, depende de ecos variados, de crítica, de imprensa livre, de fiscalização independente. Quando todos esses elementos são neutralizados por métodos de cooptação, exposição massiva e blindagem política, o resultado não é apenas uma cidade sem oposição é uma cidade vulnerável, porque deixa de enxergar seus próprios riscos. Passos viveu um ciclo de encantamento. Mas todo encantamento tem prazo de validade. E quando o efeito passa, sobra a pergunta que inevitavelmente chega para administrações que governam sob cortinas de fumaça:

Quem governou de verdade, o prefeito, ou o personagem que ele criou?